Cheque
- Desculpa aí, seu Maneco! - Adalberto deixou o cheque no balcão com um tapa e saiu falando um tchau já de costas, por cima do ombro.
O Maneco arregalou o olho direito, pegou a porra do cheque com outro tapa e colocou na velha gaveta do caixa bagunçado. Seu Maneco viu a moto velha roncando e vindo de costas para o meio-fio. Desce o motoboy e entrega para o Maneco a nota fiscal do fornecedor de frios. Cobrança em carteira. O motoboy olha os salgados na estufinha, enquanto debruça o braço na pança de fritura, sem tirar o capacete. O Maneco vai até o caixa, pega um dinheiro e completa o pagamento com o cheque do Adalberto. O motoboy pega o bolo de dinheiro com o cheque, coloca na pochete e grita um tchau meio Darth Vader por debaixo do capacete preto de viseira fumê. A fumaça preta que toma conta do boteco quando o motoboy liga a velha moto é o que mais irrita seu Maneco.
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Com a audácia de um rato atravessando uma sala cheia de gatos famintos, o Motoboy passa pelos carros parados no semáforo e freia em cima da faixa de pedestres. Apito. Encosta. Fodeu.
- Tá com pressa garoto? - O policial Marlon vai se aproximando da moto, já parada em cima da calçada. Mãos na cintura, polegares enroscados na cinta. Anda como se estivesse cagado, com as pernas abertas, duras e lentas.
- Desculpa seu guarda, mas eu parei na pontinha da faixa. A roda quase nem estava encostando.
- Ah, é… Prova… - Puxa o bloquinho do bolso, sorriso maroto de canto, caneta Bic com a tampa mordida pelos dentes tortos, cobertos pela sombra do Ray-ban pirata.
- Mas, seu guarda, a moto nem é minha, o senhor precisa me ajudar…
O policial, como um surdo, vai para trás da moto olhar a placa enquanto preenche a folha amarela do bloquinho. Toca o celular do motoboy.
- Alô.
- Onde você está moleque, já cobrou o Manuel?
- Ta na mão, seu Ademir. Mas é que eu estou com um problema com a moto no trânsito. Parei na faixa e tinha um guarda por perto e…
- Porra moleque! Dá uma grana pro homem e vem embora, estou precisando deste dinheiro.
- O chefe Ademir desliga o telefone. Um homem prático.
- Seu guarda, eu estou com pressa. Será que o senhor poderia me ajudar? – O motoboy estica o braço com o cheque do café em direção ao policial. O policial nem olha o valor, só puxa o cheque da mão do motoboy e fala baixinho.
- Sai daqui garoto, vai trabalhar, vai. O motoboy arranca e segue seu caminho. O policial enfia o cheque no bolso e volta a observar o trânsito com uma preguiça de um executivo em tarde de sexta-feira.
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Fim de expediente. O policial Marlon tira seu uniforme com o tecido duro de suor de um dia inteiro no sol e sai andando a pé pela calçada. Enroscando na camisa o anel dourado com uma grande pedra roxa, tira o cheque do bolso. Cliente desde 2005, banco com nome estrangeiro. Quinze reais! Que merda. Desvia do caminho de casa, subindo a ladeira da rua do Fofão, traficante que lhe deve favores. Entra na sala comercial e dá sorte de encontrar o Fofão lá dentro dando instruções para um funcionário. Não pode marcar bobeira ficando muito tempo por ali, vai direto ao assunto.
- Oh, Fofão. Tô precisando que você troque esse cheque pra mim. – Marlon joga o cheque em cima da mesa.
O Fofão põe a mão em cima do cheque e arrasta para o funcionário. O funcionário se estica, olha o valor do cheque.
- Que merda.
Mete a mão no bolso e entrega quinze reais em dinheiro para o colega Marlon.
- Falou, Fofão. Até mais.
Sai da sala, olhando para os lados, colocando o Ray-ban.
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Thiago estaciona o carro do pai do outro lado da rua e sobe a ladeira. Entra na sala, cumprimenta com a cabeça e coloca R$ 50,00 em cima da mesa.
- Vê trinta e cinco pra mim.
Thiago é cliente antigo do Fofão, desde o tempo em que o próprio atendia a clientela.
- Tô sem troco, meu. Só tenho esse cheque aqui de quinzão. – o funcionário coloca a mercadoria e o cheque, lado a lado em cima da mesa.
- Ah, foda-se.
O menino dá com os ombros, pega o cheque e a mercadoria. Não pode marcar bobeira ficando muito tempo por ali. Thiago volta para casa e entrega a chave do carro para o pai.
- Colocou gasolina?
- Putz véio, esqueci. – Coloca a mão no bolso, tira o cheque e dá na mão do pai. – Pega esse cheque do… – Lê o nome no cheque - …do Adalberto. Ele estava me devendo.
O véio olha para o cheque. Cliente desde 2005, banco com nome de estrangeiro. Coloca o cheque no bolso de trás da calça e vai para a garagem.
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Depois que a Valéria morreu, o véio não quis saber de casar de novo. O Thiago não iria aceitar. Pode até ser uma desculpa, mas ele se confortava assim. Pegou o carro e foi para o Café Amélia, precisava tomar alguma coisa e ver alguma coisa dançando. Tomou tudo o que podia e o que não podia. Como sempre, já estava saindo sem saber o que devia. O dono do lugar foi atrás para falar com o véio, que já estava dentro do carro.
- Quando vamos acertar suas contas?
- Quando minha mulher sair da terra.
- Não vou mais deixar você entrar aqui, não está certo.
O véio levanta a bunda do banco do carro, tira o cheque amassado e coloca na mão do dono do lugar, enquanto fala com um sorriso bêbado:
- Pra quem não ia receber nada, isso já está bom… Até amanhã. O véio arranca o carro e vai embora, deixando para o dono do café uma nuvem de poeira e o cheque amassado.
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Fim de noite, hora de acertar as contas com as dançarinas do café. Como de costume, o dono paga as meninas com o que tem no caixa. Reais, cheques, dólares, relógios de pulso, promissórias, o que tiver. Para as moças que ele buscou no nordeste porque estavam passando fome, não existe motivos para reclamar. O negócio é pegar o seu pagamento do jeito que for e se virar para usar o dinheiro ou o que sobrar dele. Maria Alice recebe os quinze reais da noite com o cheque, Cliente desde 2005, banco com nome de estrangeiro. Não reclama, já pegou coisa pior ali naquele café.
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Já é de manhã quando Maria Alice sai do Café Amélia e vai para a padaria, para tomar um café. Um café doce, daqueles que no último gole tem mais açúcar que café. Maria Alice, toda manhã, é a primeira cliente da padaria. O português já conhece sua triste história, dos dias que Maria Alice chega ali ainda bêbada e desanda a falar de seu passado. E o português é obrigado a ouvir a mesma história daquela boca bêbada e suja, pelo menos uma vez por semana. Nas primeiras vezes que ela quis pagar o Maneco com cheques que recebia no Café Amélia, seu Maneco ficava olhando para ela e coçava o bigode com a unha grande que cultivava no mindinho, só no mindinho. Mas com o tempo, com dó da menina, deixou isso virar rotina. E já não se importa mais em perder um pouco de dinheiro para ajudar a triste Maria Alice.
- Toma seu Maneco, esse cheque paga os cafés da semana que estou lhe devendo.
Seu Maneco pegou a porra do cheque de quinze reais sem olhar muito e enfiou na velha gaveta do caixa bagunçado. Já tinha se acostumado com os cheques sem fundo que Maria Alice lhe repassava. Não adiantava olhar para o cheque, era fria na certa.
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Maria Alice sai do bar e esbarra no Adalberto, que entrava de cabeça baixa. Era outro Adalberto, sem a parte de cima do terno. Meio sem jeito, “não, obrigado”, agradeceu o café que o Maneco ofereceu. Senta e fica dois segundos calado até falar.
- Oh, Maneco. Você lembra que esses dias eu te paguei com um cheque?
O Maneco fica olhando, com cara de “Você acha que é o único sacana que paga cafezinho com cheque?
- Então, Maneco, não vai dar para cobrir o cheque. Se você localizar ele, você me liga?
O Maneco abre a gaveta do caixa, fuça e encontra um único cheque na gaveta. O cheque do Adalberto. O Maneco deixa o cheque no balcão com um tapa e fala um tchau já de costas, por cima do ombro.
- Valeu Maneco, outra hora eu te pago. - E saiu.
O Maneco arregalou o olho direito, e com um tapa fechou a velha gaveta do caixa bagunçado.