Tuesday, March 18, 2008

Cheque

Tomou o café e pediu para pagar a conta da semana em cheque. Cheque? Seu Maneco coçou o bigode com a unha grande que cultivava no mindinho, só no mindinho. Adalberto não esperou a resposta do dono da padaria. Tomou o último gole do café da manhã, o fundinho do copo, mais açúcar que café, e começou a preencher o cheque especial. Cliente desde 2005, banco com nome de estrangeiro, tirado como que em câmera lenta do bolso do terno caro e escuro do Adalberto. O Maneco debruçado no balcão, molhando a barra da camisa que arrastava na pia, esticava o pescoço.
- Desculpa aí, seu Maneco! - Adalberto deixou o cheque no balcão com um tapa e saiu falando um tchau já de costas, por cima do ombro.
O Maneco arregalou o olho direito, pegou a porra do cheque com outro tapa e colocou na velha gaveta do caixa bagunçado. Seu Maneco viu a moto velha roncando e vindo de costas para o meio-fio. Desce o motoboy e entrega para o Maneco a nota fiscal do fornecedor de frios. Cobrança em carteira. O motoboy olha os salgados na estufinha, enquanto debruça o braço na pança de fritura, sem tirar o capacete. O Maneco vai até o caixa, pega um dinheiro e completa o pagamento com o cheque do Adalberto. O motoboy pega o bolo de dinheiro com o cheque, coloca na pochete e grita um tchau meio Darth Vader por debaixo do capacete preto de viseira fumê. A fumaça preta que toma conta do boteco quando o motoboy liga a velha moto é o que mais irrita seu Maneco.

……………..

Com a audácia de um rato atravessando uma sala cheia de gatos famintos, o Motoboy passa pelos carros parados no semáforo e freia em cima da faixa de pedestres. Apito. Encosta. Fodeu.
- Tá com pressa garoto? - O policial Marlon vai se aproximando da moto, já parada em cima da calçada. Mãos na cintura, polegares enroscados na cinta. Anda como se estivesse cagado, com as pernas abertas, duras e lentas.
- Desculpa seu guarda, mas eu parei na pontinha da faixa. A roda quase nem estava encostando.
- Ah, é… Prova… - Puxa o bloquinho do bolso, sorriso maroto de canto, caneta Bic com a tampa mordida pelos dentes tortos, cobertos pela sombra do Ray-ban pirata.
- Mas, seu guarda, a moto nem é minha, o senhor precisa me ajudar…
O policial, como um surdo, vai para trás da moto olhar a placa enquanto preenche a folha amarela do bloquinho. Toca o celular do motoboy.
- Alô.
- Onde você está moleque, já cobrou o Manuel?
- Ta na mão, seu Ademir. Mas é que eu estou com um problema com a moto no trânsito. Parei na faixa e tinha um guarda por perto e…
- Porra moleque! Dá uma grana pro homem e vem embora, estou precisando deste dinheiro.
- O chefe Ademir desliga o telefone. Um homem prático.
- Seu guarda, eu estou com pressa. Será que o senhor poderia me ajudar? – O motoboy estica o braço com o cheque do café em direção ao policial. O policial nem olha o valor, só puxa o cheque da mão do motoboy e fala baixinho.
- Sai daqui garoto, vai trabalhar, vai. O motoboy arranca e segue seu caminho. O policial enfia o cheque no bolso e volta a observar o trânsito com uma preguiça de um executivo em tarde de sexta-feira.

…………….

Fim de expediente. O policial Marlon tira seu uniforme com o tecido duro de suor de um dia inteiro no sol e sai andando a pé pela calçada. Enroscando na camisa o anel dourado com uma grande pedra roxa, tira o cheque do bolso. Cliente desde 2005, banco com nome estrangeiro. Quinze reais! Que merda. Desvia do caminho de casa, subindo a ladeira da rua do Fofão, traficante que lhe deve favores. Entra na sala comercial e dá sorte de encontrar o Fofão lá dentro dando instruções para um funcionário. Não pode marcar bobeira ficando muito tempo por ali, vai direto ao assunto.
- Oh, Fofão. Tô precisando que você troque esse cheque pra mim. – Marlon joga o cheque em cima da mesa.
O Fofão põe a mão em cima do cheque e arrasta para o funcionário. O funcionário se estica, olha o valor do cheque.
- Que merda.
Mete a mão no bolso e entrega quinze reais em dinheiro para o colega Marlon.
- Falou, Fofão. Até mais.
Sai da sala, olhando para os lados, colocando o Ray-ban.

…………….

Thiago estaciona o carro do pai do outro lado da rua e sobe a ladeira. Entra na sala, cumprimenta com a cabeça e coloca R$ 50,00 em cima da mesa.
- Vê trinta e cinco pra mim.
Thiago é cliente antigo do Fofão, desde o tempo em que o próprio atendia a clientela.
- Tô sem troco, meu. Só tenho esse cheque aqui de quinzão. – o funcionário coloca a mercadoria e o cheque, lado a lado em cima da mesa.
- Ah, foda-se.
O menino dá com os ombros, pega o cheque e a mercadoria. Não pode marcar bobeira ficando muito tempo por ali. Thiago volta para casa e entrega a chave do carro para o pai.
- Colocou gasolina?
- Putz véio, esqueci. – Coloca a mão no bolso, tira o cheque e dá na mão do pai. – Pega esse cheque do… – Lê o nome no cheque - …do Adalberto. Ele estava me devendo.
O véio olha para o cheque. Cliente desde 2005, banco com nome de estrangeiro. Coloca o cheque no bolso de trás da calça e vai para a garagem.

…………….

Depois que a Valéria morreu, o véio não quis saber de casar de novo. O Thiago não iria aceitar. Pode até ser uma desculpa, mas ele se confortava assim. Pegou o carro e foi para o Café Amélia, precisava tomar alguma coisa e ver alguma coisa dançando. Tomou tudo o que podia e o que não podia. Como sempre, já estava saindo sem saber o que devia. O dono do lugar foi atrás para falar com o véio, que já estava dentro do carro.
- Quando vamos acertar suas contas?
- Quando minha mulher sair da terra.
- Não vou mais deixar você entrar aqui, não está certo.
O véio levanta a bunda do banco do carro, tira o cheque amassado e coloca na mão do dono do lugar, enquanto fala com um sorriso bêbado:
- Pra quem não ia receber nada, isso já está bom… Até amanhã. O véio arranca o carro e vai embora, deixando para o dono do café uma nuvem de poeira e o cheque amassado.

…………….

Fim de noite, hora de acertar as contas com as dançarinas do café. Como de costume, o dono paga as meninas com o que tem no caixa. Reais, cheques, dólares, relógios de pulso, promissórias, o que tiver. Para as moças que ele buscou no nordeste porque estavam passando fome, não existe motivos para reclamar. O negócio é pegar o seu pagamento do jeito que for e se virar para usar o dinheiro ou o que sobrar dele. Maria Alice recebe os quinze reais da noite com o cheque, Cliente desde 2005, banco com nome de estrangeiro. Não reclama, já pegou coisa pior ali naquele café.

…………….

Já é de manhã quando Maria Alice sai do Café Amélia e vai para a padaria, para tomar um café. Um café doce, daqueles que no último gole tem mais açúcar que café. Maria Alice, toda manhã, é a primeira cliente da padaria. O português já conhece sua triste história, dos dias que Maria Alice chega ali ainda bêbada e desanda a falar de seu passado. E o português é obrigado a ouvir a mesma história daquela boca bêbada e suja, pelo menos uma vez por semana. Nas primeiras vezes que ela quis pagar o Maneco com cheques que recebia no Café Amélia, seu Maneco ficava olhando para ela e coçava o bigode com a unha grande que cultivava no mindinho, só no mindinho. Mas com o tempo, com dó da menina, deixou isso virar rotina. E já não se importa mais em perder um pouco de dinheiro para ajudar a triste Maria Alice.
- Toma seu Maneco, esse cheque paga os cafés da semana que estou lhe devendo.
Seu Maneco pegou a porra do cheque de quinze reais sem olhar muito e enfiou na velha gaveta do caixa bagunçado. Já tinha se acostumado com os cheques sem fundo que Maria Alice lhe repassava. Não adiantava olhar para o cheque, era fria na certa.

…………….

Maria Alice sai do bar e esbarra no Adalberto, que entrava de cabeça baixa. Era outro Adalberto, sem a parte de cima do terno. Meio sem jeito, “não, obrigado”, agradeceu o café que o Maneco ofereceu. Senta e fica dois segundos calado até falar.
- Oh, Maneco. Você lembra que esses dias eu te paguei com um cheque?
O Maneco fica olhando, com cara de “Você acha que é o único sacana que paga cafezinho com cheque?
- Então, Maneco, não vai dar para cobrir o cheque. Se você localizar ele, você me liga?
O Maneco abre a gaveta do caixa, fuça e encontra um único cheque na gaveta. O cheque do Adalberto. O Maneco deixa o cheque no balcão com um tapa e fala um tchau já de costas, por cima do ombro.
- Valeu Maneco, outra hora eu te pago. - E saiu.
O Maneco arregalou o olho direito, e com um tapa fechou a velha gaveta do caixa bagunçado.

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Monday, March 17, 2008

VIRGÍNIA ALOVAK

Ele assistia àquela novela todos os santos dias, aliás, há longos 10 anos, ele assistia todas as novelas que tinham no elenco alguma personagem representada pela inspiradora Virgínia Alovak, e desta vez, seu amor platônico chamava-se Vera.

Solteiro, nunca casou por causa da doce Virgínia, as personagens dela foram sempre meigas e perfeitas, o que fez com que ele nunca conseguisse se interessar por uma mulher de verdade, elas foram sempre inferiores às personagens globais de Virgínia.

O amor televisivo por Virginia fazia com que ele tivesse o coração acelerado toda noite ao chegar em casa após o trabalho, pois ligava a TV só para ver a sua amada. Era sua rotina alternativa, para ele, a melhor opção em vez de ter uma mulher de verdade lhe esperando em casa. Paixão caliente.

Para ele, era como estar casado. Ele comentava com os amigos as manias da esposa, da Virgínia; olhando as vitrines no centro ele imaginava sua esposa dentro dos belos vestidos, o corpo de Virgínia; na livraria comprava os livros que ela gostaria de ler, a sensibilidade aguçada Virgínia.

Naquela noite, ele chegou em casa correndo, atrasado, com medo que Virgínia (ou Vera) já tivesse ido embora. Liga a TV enquanto senta aflito no sofá, olho no relógio, ainda dá tempo, a imagem custa a aparecer (aparelhos modernos de merda), a voz vem antes e, sim, é a voz dela. A sedosa voz de Virgínia. Não demora e a imagem começa a aparece. Ele relaxa os olhos deixando o farol baixo, correspondendo ao olhar sexy dela. Ele olha e afunda seu rosto na mão direita apoiando o queixo, o olhar bobo e apaixonado:

- Te amo Virgínia – Sussurra ele com voz melosa.

- Como é bom ver você. Prometa nunca ir embora da minha vida (leia-se televisão), prometa nunca se aposentar. Virgínia, Virgínia. – Ele repete o nome dela como se referindo a um órgão sexual, é o êxtase.

- Vou sentir saudades até a próxima novela estrear. – Era o último capítulo de ‘Amada Minha’.

Naquela noite ele teve o sonho que sempre esperou. Ele sonha com Virgínia. Mas não era a Virgínia pessoa, era uma personagem inédita, desta vez ela era Maura.

Era o papel que ele sempre esperou que algum diretor a chamasse para fazer, o papel de esposa do sonhador. O sonho era maravilhoso.

Um dia de férias com muito dinheiro, sexo e diversão a dois. Na volta das férias ele precisou voltar antes para trabalhar, a despedida foi como as cenas de novela. Choro, lágrimas e palavras vibrantes de amor. Ele parte e aguarda sue amada ligar no meio da semana para buscá-la no aeroporto.

Cena do sonho 2: Ele está em casa dormindo e o telefone toca, ele vira-se na cama para atender e… Ele cai da cama e acorda (idiota), quase sonâmbulo, cai ao tentar atender o telefone ao lado da cama do sonho. Ao cair e acordar com a porrada, ele descobre que na vida real seu telefone está mesmo tocando. Que confusão. Ele atende.

- Alô! - Atende puto com o imbecil que o acorda no meio do melhor sonho da sua vida.

- Alô neném, esqueceu sua Maurazinha no aeroporto?

- …

- Neném, você está acordado? Pode responder se já está vindo, por favor?

- …

Sem falar nada, ele desliga o telefone e fica parado com cara de paisagem. ‘Maurazinha’? ‘Neném’? ‘Aeroporto’?

- Será que eu estou dormindo?

Ele levanta e vai lavar o rosto. Não entende nada e não sabe o que fazer. Ir ao aeroporto, voltar a dormir? E agora? Ele tinha certeza que o telefonema era real, não sabia o que pensar. Sem opção, ele vai ao aeroporto…

Quando sobe a rampa de desembarque, ele confirma o que duvidava, era ela, Virgínia Alovak. Ela vira, sorri para ele (como uma cena de novela editada em câmera lenta) e com sua bagagem de mão, corre alegre em sua direção. Ele fica ali parado, sem entender nada. Um abraço apertado e o beijo mais gostoso que ele já sentiu. Era impossível de acreditar, depois de 10 anos sonhando, Virgínia Alovak aparece na sua vida encarnando a personagem Maura, o que estava acontecendo.

Ele chega em casa e ela age naturalmente, comenta a viagem e diz que já estava morrendo de saudades.

Já faz 20 anos que este episódio aconteceu. Depois do capítulo final de ‘Amada Minha’, Virgínia Alovak nunca mais apareceu em novelas, entrevistas, reprises ou revistas. Um mistério que ele nunca procurou entender e também nunca quis perguntar para sua Maura. Nada disso importa, o que importa é que agora ela era real e a vida dele estava completa.

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LEMBRANÇAS

             No meu aniversário de 43 anos eu precisava realizar um sonho, soltar um foguete. Ridículo. E podia ser somente um, eu só queria sentir a vibração do meu braço fraco no momento em que o projétil saísse do cilindro de papelão para depois se arrebentar no meio do céu. Mamãe nunca me deixou brincar com estas coisas. Mamãe se foi, o tempo passou e eu havia me esquecido que tinha um sonho a realizar.

           Fui até a loja de fogos e pedi como eu havia lido em um jornal anos atrás. ‘Um três tiros canhão, por favor’. Sem nenhuma palavra o gordinho sorriu de leve, levantando só um lado do bigodinho estreito e foi para a prateleira pegar o arsenal. Paguei e saí antes que ele descobrisse que eu nunca havia comprado um foguete antes. Vergonha.

            Praia das sementes deserta, uma da manhã. Cheguei com a caixa debaixo do braço, ainda na sacolinha da loja de fogos. Eu precisava fazer aquilo sozinho, poderia ser um desastre, eu poderia morrer. Sentei na areia e abri a caixa enquanto equilibrava um dos foguetes entre meus joelhos para não encostar na areia molhada. Comecei a ler as instruções na lateral da caixa, precisava me contorcer, procurando a luz da lua enquanto meus olhos teimavam em perder a linha seguinte. Li as instruções como um soldado atento e ansioso ouvindo de seu general as orientações para detonar uma granada poderosa e letal.

          Levantei, esfregando a areia dos olhos e larguei a caixa no chão. O vento batia forte na sacolinha branca que, segurada pelo peso da caixa, ficou reclamando do frio. Debatia-se e, fazia mais barulho do que as ondas, como se gritasse que aquilo não estava certo. Ela queria fugir como o soldado inimigo que se vê em perigo. Que precisa avisar que algo não está certo.

        Foguete na mão e isqueiro na outra. Olhei para o céu como quem olha para um alvo inimigo movendo-se lenta e silenciosamente. Todo aquele ritual parecia me tornar maior. Não sei bem porque, mas me lembrei do Apocalipse.

          Levantei o foguete na posição indicada enquanto meu pensamento repetia a voz do general orientando os procedimentos. Acendi. O foguete saiu como um tiro que eu pude acompanhar com os olhos. O pedaço de papelão virou uma peça inútil que joguei na areia. Fiquei olhando para cima, pensando que a vibração que eu esperava sentir em meu braço não aconteceu. Mas isso não importava, pois a curva que o foguete fazia no céu era maravilhosa, elíptica e bucólica. Com certeza meus olhos brilhavam e mamãe estava no céu decepcionada olhando aquilo. Não tive tempo de pedir desculpas. Os tiros seguiram uma seqüência com intervalos perfeitos. Bam… Bam… Bam… Eu esperava um silêncio recompensador após os estouros, quando vi cair do céu algo parecendo um corpo que estatelou na água de barriga. Splásh! Corri para a água para acudir. Tirei a camisa e as havaianas, mas quando pisei forte e senti o gelo das pequenas ondas, parei. Lembrei que eu tinha pavor do mar. Fiquei ali parado no rasinho, na ponta dos pés, para ver o que havia acontecido… Um velhinho começou a surgir das ondas, lento e silencioso. Primeiro sua cabeça, bigode e barbas cobertos de areia. Depois surgiu o resto do corpo, as roupas rasgadas e encharcadas que pesavam e dificultavam o andar do velho homem. Em instantes, percebi que não eram roupas rasgadas, eram vestimentas bíblicas e o cara não era um cara, era Deus.

            - É… Puxa… Desculpe ter derrubado você, digo o senhor, Senhor.

            - Idiota, olha o que você fez comigo. Vai demorar horas para me secar. - Falava sem olhar para mim. Magoado?

            - Pode usar minha camiseta para se secar, Senhor. - Arranquei a camisa como oferenda.

            - Obrigado, prefiro meu próprio vento. - E sentou na areia, com olhar fixo para o mar.

 
         Segundos depois, chega seu cajado empurrado pelas ondas, deixando um rastro torto na areia. Peguei o cajado e entreguei para ele, que não agradeceu, levantou e saiu andando pela orla da praia. Fui atrás

      Fui andando ao lado dele de cabeça baixa, sem camisa e chinelos, pensando por onde eu deveria começar a perguntar. Eram tantas questões que deveriam ser respondidas, tantas dúvidas que me perturbavam desde criança, eu não sabia por onde começar. Talvez perguntar se o céu existe, mas isso seria a pior pergunta, pois eu mesmo havia derrubado ele de lá a pouco. Então eu poderia perguntar sobre a veracidade de Adão e Eva, até ali eu achava aquilo uma besteira, mas se ele estava ali, algo tinha que ser verdade. E o pecado contra a castidade? Talvez eu devesse começar a acreditar em tudo, pois a prova viva de tudo estava caminhando sem sandálias ao meu lado. E havia os rastros na areia para provar. Resolvi que não, que eu deveria levantar a cabeça, olhar para ele e dizer: ‘Desculpe por ter duvidado de tudo, obrigado pela vida’. Quando formulei a frase exata e levantei a cabeça, vi que eu já estava andando sozinho.

       Voltei seguindo os dois rastros na areia e me toquei que havia caminhado durante trinta minutos. Apanhei meus havaianas e a caixa de foguetes no mesmo momento em que uma onda apagava os rastros atrás de mim.

            Na volta para casa, desci do carro e joguei a caixa na lixeira da rua. Voltei para o carro, bati a porta e lembrei da mamãe. Percebi que ela tinha razão.

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MALDITO DIA

Maldita hora da manhã, pegar este ônibus lotado. Sem contar a atenção redobrada que tenho que tomar depois do dia em que chutaram minha carteira. - Infeliz, levou minha identidade e minha carteira de motorista vencida. - Também, este terno barato que me obrigam a usar chama a atenção dos urubus.

          Passa o dia, vêm o almoço e corro para o banco ver o tamanho do furo na minha conta, estou lá na fila do caixa automático, do lado de fora da agência, pensando quanto vou precisar pedir de adiantamento na firma… De repente um cara me pega pelo braço e sai me arrastando e sussurrando: “Anda normal malandro, anda normal”. Quando senti uma arma nas minhas costelas, sabe o que eu fiz? Andei normal malandro, andei normal… Chegamos a um carro todo preto e o cara me joga para dentro. Umas cinco quadras dali o cara aperta a arma contra minha cabeça e me pergunta:

            - Ondé qui é a agência mais próxima desse banco aí maluco? - Apontando para o cartão que ficou na minha mão.

            - Eu sei lá… - Só digo isso, apavorado. Também pudera, nunca uso o banco pra nada, só para cobrir contas e me incomodar.

- Tu pára de sacanagem e fala duma vez rapá, fala aí onde qui é essa agência… - O cara começa a gritar.

- Eu sei lá…

Mas nessa gritaria, eu apavorado, já pensei que ia morrer quando eles descobrissem que pegaram o cara errado no lugar certo..

Bem, depois de umas coronhadas na cabeça, uns socos no estômago e alguns quilômetros rodados, os caras descobriram que eu era um duro mesmo e me jogaram para fora, com o carro andando. Me ralei bastante…

Dando graças a Deus de ser liberado do seqüestro relâmpago, levantei olhando o mato de todos os lados, mudei de idéia, e gritei, pedindo para eles voltarem. Em trinta segundos, do meio do mato, vejo uma luz se aproximando e um carro em alta velocidade. Paro no meio da trilha e faço sinal para eles pararem, mas eles não param, era uma família perdida e com medo de assalto o pai motorista me atropela, quebrando minha perna direita. Fiquei rolando no chão… Dois minutos de dor e passa uma van que pára ao meu lado, dois caras desesperados descem e me colocam para dentro, um encosta outra arma em mim e me manda ficar ‘quietinho’.

Outro liga do celular e começa a negociação:

- Alô. Capitão Armando, temos um refém no carro. Não fale nada, só escute. Temos um refém e não vamos nos entregar. É um executivo de uma multinacional que mora em Alphaville. Vamos matá-lo caso não parem de nos seguir. Ligo para você novamente assim que nosso acordo for respeitado por vocês. Tchau capitão. - e desligou.

 

- Quem é você?

- Ninguém.

- Como veio parar aqui?

- Nossa… Eu… Putz…

- Pára de gaguejar rapaz, tá na cara que você é da polícia. De terno no meio do mato e se fingindo de machucado no meio da trilha.

- Eu não sou…

- Mas é o seguinte, você quis sacanear a gente e entrou numa roubada seu polícia. Eu vou te matar e jogar seu corpo de cima do avião, assim que conseguirmos decolar.

- Alô - ele liga novamente para o Capitão Armando - É isso aí Capitão, não ouço mais as sirenes, acho que nosso acordo foi feito com segurança. Vou devolver o refém perto de algum telefone e deixar seu número com ele para vir buscá-lo. Tchau Capitão. - e desliga novamente.

- Sabe de uma coisa seu policial do caramba, não vou te matar porque você precisa viver para sofrer um pouco mais. - E já acostumado com a rotina levo alguns socos e ponta pés, desta vez sem coronhadas.

 

A Van entra em uma rua de asfalto e os caras me chutam para fora. Me ralei mais um pouco. Junto comigo jogam um pedaço de papel com o telefone do Capitão. Conforme combinado, em frente a um telefone público. Peguei o papel e fui até o telefone, disquei.

- Alô, Marlise? Oi Marlise, que bom falar com você! O Doutor Augusto está? Ah sim, reunião. Avisa ele que não vou pude chegar no escritório na parte da tarde, mas amanhã eu levo um atestado médico. - desligo.

- Alô, é do pronto socorro? Por favor, tenho uma urgência. Endereço? Espera aí…

 

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Monday, January 28, 2008

Traição

- Você não deveria ter feito isso comigo.
- Pow. - Ele atira.
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Sunday, May 27, 2007

Não eram alfinetes _ Côntoles

Espirrou e sentiu picadas na mão. Pulou e sentou rápido na cama, acendeu a luz fraca e amarelada do abajur e olhou para a mão direita. Agulhas. Parecia que haviam saído com o espirro. - Alucinações, alucinações. Estou trabalhando demais. - Levantou, foi até o banheiro e deixou o punhado de agulhas finas em cima da pia molhada. Limpou o pouco de sangue que saíra dos furinhos da mão e voltou a dormir.

Levantou pela manhã atrasado. Passou rápido pelo banheiro, só para jogar uma água gelada no rosto e saiu. No banco de trás do táxi, lembrou das agulhas. Havia passado muito rápido pelo banheiro e não reparou se elas estavam lá. Sonhei? - Atchim! – Colocou a mão na frente, tentando segurar o espirro. – Perdão – Falou ao motorista como se tivesse de boca cheia. E estava. Agulhas. Duas na boca espetando e ele segurando para não gritar. Mais um punhado havia saído e espetava sua mão direita. Dor. Pegou um lenço da pasta, cuspiu as da boca com um pouco de sangue e virou a mão direita sobre o lenço na mão esquerda, sacudiu e elas caíram. Enfiou tudo na pasta. – Que diabos. – Pensava e esfregava as mãos, limpando o sangue no banco do táxi.

Sentou, colocou a pasta em cima da sua mesa, abriu e olhou lá dentro. O lenço ensangüentado furado pelas agulhas. Fechou. Deixou tudo na pasta como estava. Ligou o computador e – Atchim! – Agulhas por toda a mesa, chegaram a fazer barulho. Espirrou tão forte que não sobrou nenhuma na boca. Agulhas por toda a mesa e caindo sobre o chão. Plim, plim, plim, plim…

- Posso te ajudar? – Andréia passava, ouviu o barulho e ajudou a catar as agulhas espalhadas.
- Que bagunça! – Ajudou a moça a catar, segurando um outro espirro.
- Onde eu coloco? – Estava com as agulhas em cima de um maço de papel que carregava.
- Pode deixar em cima da mesa, eu arrumo. Obrigado. Andréia saiu.}

Ele abaixou a cabeça para pensar. Ligou para o médico.

- Doutor? É o Wagner. Estou espirrando coisas esquisitas.
- É o inverno Wagner, seu organismo está expectorando.
- Não doutor, não são catarros. Preciso ir até aí. O senhor precisa ver isso.
- É só uma gripe, meu rapaz. Acupuntura pode ajudar
- Obrigado doutor. Eu ligo mais tarde se precisar.

Durante todo o dia segurou os espirros. Foi para casa e direto para a cama. Antes, pegou três copos e deixou em cima do criado mudo. Antes de adormecer sentiu vontade de espirrar. Rápido. Pegou o copo e colocou na frente – Atchim.- encheu o copo com as agulhas. Deixou de lado. Mais dois copos dariam para passar a noite. Adormeceu.

Acordou, abriu os olhos, e a primeira coisa que viu foram os três copos. Um cheio de agulhas e os outros dois vazios. Levantou e foi ao banheiro se lavar. Em cima da pia estavam as agulhas finas da manhã seguinte. Acendeu a luz e – Atchim. – Colocou as duas mãos na frente. De olhos fechados sentia a dor das agulhas nas mãos. Abriu os olhos e não havia nada, nenhuma agulha. A dor foi uma antecipação do cérebro. Não espirrou mais durante o dia. Espirrou novamente dias depois, sem agulhas nem catarros. Espirro normal. Espirro de saliva. Ligou para o médico para agradecer a orientação e para avisar que a acupuntura resolveu. Na verdade ele não fez acupuntura nenhuma, mas devia satisfações ao médico, mesmo que o médico não o conhecesse. Havia achado seu número aleatoriamente na lista telefônica. O sobrenome Firtzgard lhe passou confiança. De fato, foi o único com quem Wagner pode contar.

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Tuesday, October 10, 2006

Amigo da Onça

Um clássico do cinema mudo. Este filme inspirou o cinema expressionista alemão e as técnicas cinematográficas de Charles Chaplin. “Mudou meu modo de pensar em relação ao cinema profissional”, disse Sergei Eisenstein.

http://www.youtube.com/watch?v=PngYKqRMgDM

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Sunday, February 12, 2006

Chaves

Sempre gostei das idéias de Chaves. Sua ideologia é inspiradora, suas lições de moral parecem nunca se desgastarem com o tempo. Assistir as falas de Chaves é ouvir frases célebres e que nunca ficam desatualizadas. Chaves é humilde e vive com o que tem. Chaves observa a vida dos vizinhos e dela sempre tira uma lição, uma diretriz de ação. São vizinhos ricos e pobres. Os que tem pouco são caloteiros, gente que não pode contar com a ajuda de ninguém, gente que vive com cobradores batendo às suas portas.

Chaves é querido pela vizinhança, sempre conta com a ajuda de todos. Chaves é lobista, Chaves sabe o que faz. Chaves provoca intrigas e sai de cena. Os peixes que se mordam. Chaves provoca os dois lados e se esconde em seu casulo para observar a peleja e rir dos grandes se bicando. Chaves é sarcástico, mas Chaves é humano. Dá conselhos, lições de moral, lições de humildade, de bom relacionamento. Se preocupa com o que acontece ao seu redor.

Chaves não tem medo de provocar, é destemido. Chaves enfrenta o dono do pedaço, aliás, aquele que acha que é o dono. (Aquele com cara de mal, que manda bater nos mais fracos. Um ignorante que não entende nada de política da boa vizinhança, um invejoso, pai de uma filha alienada, tapada e medrosa).

O que Chaves mais gosta é de se fazer de bom amigo do gordinho, ensinar ao gordinho tudo errado, mentir para o gordinho. Chaves é muito respeitado pelo homem do charuto, ouve o que o homem do charuto tem a dizer, concorda com o homem do charuto e às escondidas compartilha um charuto com o bom amigo. Se dependesse de mim, Chaves era presidente da associação de moradores!
- Mas Chaves já é presidente do país. – Disse um amigo ao ler as linhas acima.

Ai Caracas! Não estou falando de Hugo Chaves! Já disse que não escrevo sobre política. Eu estou falando do Chaves da TV, o mexicano, e não do presidente venezuelano! Não vou perder meu tempo escrevendo sobre um chantagista, um falso rebelde.

Rebeldes, por sua essência, são politizados e não políticos, não podem ocupar vagas de presidente! Líderes revolucionários não podem ser situação, isso tira toda a razão de ser um! Verdadeiros líderes de revolução querem lutar para que o país tenha um bom presidente, devem lutam para que o país seja bem representado, e se não for, lá estão eles, de fora, fortes e prontos para derrubar quem não corresponde com a expectativa da população e firmes para reivindicar por uma política mais transparente e benéfica.

Hugo Chaves está lá, à frente do governo corrupto de seu país, assim como Lula, como Fidel. Não admito líderes políticos da situação, atuando em um sistema governamental e se passando por rebeldes. Não são revolucionários, são falsificações repugnantes, cuspindo lições de moral para o mundo, mas vivendo com o alto salário de presidente. Comendo do bom e do melhor, morando bem, mantendo sua boa condição financeira, seu alto padrão e pregando retóricas com pitadas de socialismo morto enquanto posam com pinta de moços humildes.

Pena que o Chaves mexicano seja uma ficção. Bolaños não teve a pretensão de criar um Chaves político, mas um Chaves humano e é por isso que Chaves tem todas estas qualidades, por isso Chaves entende de humildade, de humanismo, de pobreza, de exclusão. Chaves (o que mora no barril) já teve a chance de roubar, de matar e de se dar bem às custas dos outros, mas ele é humano demais para passar em cima de qualquer pessoa para levar vantagens. Chaves é esperto e não espertinho ou espertalhão como os falsos líderes de la revolución.

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Sunday, February 5, 2006

Mais um Conto Perturbado

Aqui não temos novidades. Se você aguenta uma dose de terror, leia o novo conto Perturbado em insanos.blog.com

Mais um personagem com problemas de relacionamento neste mundo aparece nas linhas de www.insanos.blog.com.

“Análises Cínicas” - Um funcionário de laboratório que alimenta seu Rei.

LEIA!

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Posted by buzzz in 14:48:55 | Permalink | No Comments »

Thursday, December 15, 2005

Conto de Natal

Era seu 35º natal. Não tinha a esperança de ganhar nada, nunca ganhou. Sem esposa, nem filhos. Sem pais nem irmãos. Não, nenhum caso de falecimento coletivo. Foi rebento de uma inseminação artificial em animais clonados. Uma experiência mal sucedida escondida dele até seus 20 anos de idade. A sua mãe, uma cabra albina, ele nunca quis conhecer. Não aceitava ter sido abandonado por ela. 

Quando criança, nunca foi às lojas e shoppings ver Papai Noel. Ficou um trauma, que após 35 anos ele achou que já era a hora de superar.

24 de Dezembro. Levantou cedo e foi à loja de brinquedos do centro para encarar de perto o palhaço natalino e superar o seu problema. Pensou em espancar, fura-lo com um garfo, ou pegá-lo na hora da saída, mas decidiu que iria xingar e esperar uma reação do velhote, dependendo da reação cairiam na porrada ali mesmo, dentro da loja. Sangue e suor, é assim que se tira as coisas a limpo. Chegou de ônibus e desceu a duas quadras da loja lotada. Faixas de promoção, locutores desdentados e músicas da Ivete Sangalo atraindo o público para as promoções de última hora. “Boneca Barbie, só R$ 17,90!”.

Pisou na loja e entrou na fila para ver o Papai Noel, tinha o dobro do tamanho da maior criança na fila. Odiava crianças. A fila demorou uma hora e meia, mas ele estava determinado a encarar o velho barbudo de frente e mandá-lo para o inferno. Não sabia o que iria falar, inventaria na hora. “Seu pau no cú” ou “Seu… Seu… Otáááário”. Sobrou só uma criança na sua frente, ele pensou em desistir, mas o Noel chamou o garoto e ele ficou ali sem escudo para se defender e em instantes o velho de botas gastas chamou:

-         Próximo.

-         Caracas!

-         Olha que visita maravilhosa.

-         Cala a boca, filho da puta. – Pensou.

Fechou os punhos. Como não tinha ensaiado o que iria falar, travou e não sabia por onde começar. Sem pensar, mecanicamente, ele repetiu a atitude das outras crianças. Subiu devagar as escadas e sentou lentamente no colo do Papai Noel. O velho, com um bafo nojento, mandou uma risada característica e enfiou a luva branca encardida no saco enquanto olhava fixamente nos olhos dele. Pegou um punhado de balas e soltou na mão dele. Ele segurou as balas com as duas mãos e não sabia o que fazer. Ele se inclinou em direção ao velho e deu um beijo melado no seu rosto. Sem falar nada, levantou e foi embora. Foi para casa chupando as balas e com lágrimas nos olhos.

 

 

Posted by buzzz in 15:47:47 | Permalink | Comments (1) »