Passei no mercado hoje e comprei um pacote de Marchmelllow. Nunca soube como se escreve isso, porque só se ouve a palavra durante a abertura de alguns filmes ou nas dublagens (se tiver algum acampamento no roteiro). Na verdade, estou bem perto de saber como se escreve o nome desse doce. O pacote dessas coisinhas fofas está bem na minha frente, em cima do armário, mas o problema é que a embalagem está amassada e não consigo ler daqui.
Comprei esta porcaria há alguma horas atrás, no mercadinho daqui do bairro. Na volta para casa vim torcendo para encontrar algum conhecido que me perguntasse ‘o que é que tem aprontado?’ e então eu balançaria meu pacote de marchymelons para ele ver. Só sei que esta goma fedida não funciona como nos filmes.
Cheguei do mercado e fui direto para o quintal, fiz uma fogueira com um criado mudo velho que herdei de minha sogra. Estava quebrado lá no quintal desde o dia em que foi arremessado pela vidraça de vidro do quarto, que encontrava-se fechada na ocasião. Hoje o buraco na parede do quarto hostenta uma fino madeirite que me proteje do frio e da chuva. O tal criado foi arremessado durante a minha briga com a Irene. Ela nunca mais voltou para casa. Nem ela, nem o criado mudo. E a janela do quarto nunca mais foi a mesma. Nem ela, nem eu.
Naquele momento eu não queria pensar na Irene, pois estava preocupado mesmo era com a minha fogueira de assar narximelows. E a madeira do criado voador não estava colaborando. Estava úmida, cheirava a restos de coelho apodrecido dispensados após o almoço de uma onça preguiçosa. A madeira estava tão úmida que o fogo não pegava. Passei alguns minutos criando alternativas, até que resolvi despejar um pouco de vodca nos restos do criado da Irene. Tomava um gole e jogava outro no que começou a se tornar uma fogueira. Tive essa idéia porque a Irene sempre dizia que vodca me deixava de fogo. Mas a minha fogueira ainda não era como a dos filmes e eu estava muito puto por não conseguir fazer aquilo direito que acabei derrubando meu Zippo dentro da fogueira. Consegui salvá-lo meio chamuscado, com a ajuda de um dos pés do criado que ainda não haviam virado cinza. Meu Zippo ficou com cara de isqueiro sobrevivente da segunda guerra. Eu sempre quis ter um isqueiro da segunda guerra.
Enquanto eu guardava o fogo como um homem das cavernas, aproveitei para catar umas varinhas no quintal. As varinhas que tinham cara de espeto de marchinmelos eu guardava. Cheguei a encontrar quinze, até me dar conta de que eu só precisaria de uma ou duas. O problema é que o machmelow não assa como nos filmes. Alguns começam a derreter, outros só ficava quentinhos. Fiquei ali de cócoras, tentando assar os rolinhos de neve. Cada pedaço do criado mudo que eu jogava na fogueira, me remetia a alguma situação que eu havia vivido com a Irene. Queimava aquilo imaginando a Irene queimando. A gaveta do criado eu ia jogar inteira, mas quando puxei, vi que havia um bilhete ali dentro. Na verdade, era um pedacinho amassado de papel, com um telefone e um nome: Jorge. Corri para dentro da casa e liguei para descobrir quem era o desgraçado. Do outro lado ouvi um alô que normalmente eu ouvia deste lado da linha.
- Irene, o que você está fazendo neste núnero?
- Quem está falando?
- Sou eu, pô!
Uma voz masculina atende o telefone.
- Alô!
- Quem é você?
- Escuta aqui, foi você quem ligou. Com quem você quer falar?
- Aqui é o marido da Irene. E quero saber quem é você! E o que a Irene faz na sua casa!
Ele abafou o telefone, mas ouvi ele dizer:
- (É o corno). – E desligou o telefone.
Eu comecei a andar desesperado de um lado para o outro com as mãos penduradas e os braços a noventa graus como se fosse rezar mas eu tremia e me balançava sem conseguir raciocinar o que estava acontecendo eu olhava fixamente para o pacote de marchinelom e minha vista embassada não conseguia ler então espalmei as duas mão com força na base fria do armário cotovelos estendidos mas os braços tremiam e eu tentava fixar os olhos e ler o que estava escrito tudo estava ficando turvo e eu não conseguir focar nas letras e derepente alguém arrombou a porta da casa e veio em minha direção eu piscava rápido e esfregava os olhos e aquela montanha vinha em minha direção e eu apaguei…
Acordei há pouco minutos amarrado nesta cadeira, virado de frente para o armário. Em cima do armário, o pacote amassado de marchyelows. Comecei a repensar o que havia acontecido. A casa está vazia, levaram tudo. Só sobrou o pacote amassado de marchimelus e o armário onde ele está. Além desta cadeira e eu. O restante foi levado. Isso é obra da Irene e do tal de Jorge. Mas isso até não está me deixando tão puto, porque já tenho certeza que foi ela e não tem o que fazer, agora já foi. O que está me deixando mais irritado no momento, é que o pacote de marxymelos está tão perto e eu não consigo me soltar desta cadeira para desamassar aquela porcaria de pacote e ler de uma vez por todas como é que se escreve Marxinelons.




