O caso dos Marshmallows

Posted: 19th November 2011 by buzzz in Uncategorized

Passei no mercado hoje e comprei um pacote de Marchmelllow. Nunca soube como se escreve isso, porque só se ouve a palavra durante a abertura de alguns filmes ou nas dublagens (se tiver algum acampamento no roteiro). Na verdade, estou bem perto de saber como se escreve o nome desse doce. O pacote dessas coisinhas fofas está bem na minha frente, em cima do armário, mas o problema é que a embalagem está amassada e não consigo ler daqui.

Comprei esta porcaria há alguma horas atrás, no mercadinho daqui do bairro. Na volta para casa vim torcendo para encontrar algum conhecido que me perguntasse ‘o que é que tem aprontado?’ e então eu balançaria meu pacote de marchymelons para ele ver. Só sei que esta goma fedida não funciona como nos filmes.

Cheguei do mercado e fui direto para o quintal, fiz uma fogueira com um criado mudo velho que herdei de minha sogra. Estava quebrado lá no quintal desde o dia em que foi arremessado pela vidraça de vidro do quarto, que encontrava-se fechada na ocasião. Hoje o buraco na parede do quarto hostenta uma fino madeirite que me proteje do frio e da chuva. O tal criado foi arremessado durante a minha briga com a Irene. Ela nunca mais voltou para casa. Nem ela, nem o criado mudo. E a janela do quarto nunca mais foi a mesma. Nem ela, nem eu.

Naquele momento eu não queria pensar na Irene, pois estava preocupado mesmo era com a minha fogueira de assar narximelows. E a madeira do criado voador não estava colaborando. Estava úmida, cheirava a restos de coelho apodrecido dispensados após o almoço de uma onça preguiçosa. A madeira estava tão úmida que o fogo não pegava. Passei alguns minutos criando alternativas, até que resolvi despejar um pouco de vodca nos restos do criado da Irene. Tomava um gole e jogava outro no que começou a se tornar uma fogueira. Tive essa idéia porque a Irene sempre dizia que vodca me deixava de fogo. Mas a minha fogueira ainda não era como a dos filmes e eu estava muito puto por não conseguir fazer aquilo direito que acabei derrubando meu Zippo dentro da fogueira. Consegui salvá-lo meio chamuscado, com a ajuda de um dos pés do criado que ainda não haviam virado cinza. Meu Zippo ficou com cara de isqueiro sobrevivente da segunda guerra. Eu sempre quis ter um isqueiro da segunda guerra.

Enquanto eu guardava o fogo como um homem das cavernas, aproveitei para catar umas varinhas no quintal. As varinhas que tinham cara de espeto de marchinmelos eu guardava. Cheguei a encontrar quinze, até me dar conta de que eu só precisaria de uma ou duas. O problema é que o machmelow não assa como nos filmes. Alguns começam a derreter, outros só ficava quentinhos. Fiquei ali de cócoras, tentando assar os rolinhos de neve. Cada pedaço do criado mudo que eu jogava na fogueira, me remetia a alguma situação que eu havia vivido com a Irene. Queimava aquilo imaginando a Irene queimando. A gaveta do criado eu ia jogar inteira, mas quando puxei, vi que havia um bilhete ali dentro. Na verdade, era um pedacinho amassado de papel, com um telefone e um nome: Jorge. Corri para dentro da casa e liguei para descobrir quem era o desgraçado. Do outro lado ouvi um alô que normalmente eu ouvia deste lado da linha.

- Irene, o que você está fazendo neste núnero?

- Quem está falando?

- Sou eu, pô!

Uma voz masculina atende o telefone.

- Alô!

- Quem é você?

- Escuta aqui, foi você quem ligou. Com quem você quer falar?

- Aqui é o marido da Irene. E quero saber quem é você! E o que a Irene faz na sua casa!

Ele abafou o telefone, mas ouvi ele dizer:

- (É o corno). – E desligou o telefone.

Eu comecei a andar desesperado de um lado para o outro com as mãos penduradas e os braços a noventa graus como se fosse rezar mas eu tremia e me balançava sem conseguir raciocinar o que estava acontecendo eu olhava fixamente para o pacote de marchinelom e minha vista embassada não conseguia ler então espalmei as duas mão com força na base fria do armário cotovelos estendidos mas os braços tremiam e eu tentava fixar os olhos e ler o que estava escrito tudo estava ficando turvo e eu não conseguir focar nas letras e derepente alguém arrombou a porta da casa e veio em minha direção eu piscava rápido e esfregava os olhos e aquela montanha vinha em minha direção e eu apaguei…

Acordei há pouco minutos amarrado nesta cadeira, virado de frente para o armário. Em cima do armário, o pacote amassado de marchyelows. Comecei a repensar o que havia acontecido. A casa está vazia, levaram tudo. Só sobrou o pacote amassado de marchimelus e o armário onde ele está. Além desta cadeira e eu. O restante foi levado. Isso é obra da Irene e do tal de Jorge. Mas isso até não está me deixando tão puto, porque já tenho certeza que foi ela e não tem o que fazer, agora já foi. O que está me deixando mais irritado no momento, é que o pacote de marxymelos está tão perto e eu não consigo me soltar desta cadeira para desamassar aquela porcaria de pacote e ler de uma vez por todas como é que se escreve Marxinelons.

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Foi o fim.

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Discurso do Mudo

Posted: 2nd March 2011 by buzzz in Uncategorized
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Contam que nada se ouviu.

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Conto de Natal

Posted: 31st January 2011 by buzzz in 1
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Era seu 35º natal. Não tinha a esperança de ganhar nada, nunca ganhou. Sem esposa, nem filhos. Sem pais nem irmãos. Não, nenhum caso de falecimento coletivo. Foi rebento de uma inseminação artificial em animais clonados. Uma experiência mal sucedida escondida dele até seus 20 anos de idade. A sua mãe, uma cabra albina, ele nunca quis conhecer. Não aceitava ter sido abandonado por ela.

Quando criança, nunca foi às lojas e shoppings ver Papai Noel. Ficou um trauma, que após 35 anos ele achou que já era a hora de superar.

24 de Dezembro. Levantou cedo e foi à loja de brinquedos do centro para encarar de perto o palhaço natalino e superar o seu problema. Pensou em espancar, fura-lo com um garfo, ou pegá-lo na hora da saída, mas decidiu que iria xingar e esperar uma reação do velhote, dependendo da reação cairiam na porrada ali mesmo, dentro da loja. Sangue e suor, é assim que se tira as coisas a limpo. Chegou de ônibus e desceu a duas quadras da loja lotada. Faixas de promoção, locutores desdentados e músicas da Ivete Sangalo atraindo o público para as promoções de última hora. “Boneca Barbie, só R$ 17,90!”.

Pisou na loja e entrou na fila para ver o Papai Noel, tinha o dobro do tamanho da maior criança na fila. Odiava crianças. A fila demorou uma hora e meia, mas ele estava determinado a encarar o velho barbudo de frente e mandá-lo para o inferno. Não sabia o que iria falar, inventaria na hora. “Seu pau no cú” ou “Seu… Seu… Otáááário”. Sobrou só uma criança na sua frente, ele pensou em desistir, mas o Noel chamou o garoto e ele ficou ali sem escudo para se defender e em instantes o velho de botas gastas chamou:

- Próximo.

- Caracas!

- Olha que visita maravilhosa.

- Cala a boca, filho da puta. – Pensou.

Fechou os punhos. Como não tinha ensaiado o que iria falar, travou e não sabia por onde começar. Sem pensar, mecanicamente, ele repetiu a atitude das outras crianças. Subiu devagar as escadas e sentou lentamente no colo do Papai Noel. O velho, com um bafo nojento, mandou uma risada característica e enfiou a luva branca encardida no saco enquanto olhava fixamente nos olhos dele. Pegou um punhado de balas e soltou na mão dele. Ele segurou as balas com as duas mãos e não sabia o que fazer. Ele se inclinou em direção ao velho e deu um beijo melado no seu rosto. Sem falar nada, levantou e foi embora. Foi para casa chupando as balas e com lágrimas nos olhos.

Originalmente publicado em: Dec 15, 2005

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Sapato

Posted: 22nd December 2010 by buzzz in Uncategorized

Quase fui indelicado com o Maurício quando ele ligou. Queria avisar que tinha esquecido um pé de um sapato social no porta-malas do meu carro. Na verdade, não fui estúpido com ele porque quem atendeu o celular foi a Claudinha e a sua santa compreensão. Se tivesse ligado no meu celular ele ia ouvir. Onde já se viu? Dorme na nossa casa, pega carona até o aeroporto e ainda deixa um maldito pé de sapato para eu cuidar. ‘Sem problemas. Qualquer hora eu pego com vocês’. Sem problemas? Sem problemas para ele que não precisaria ficar cuidando de um pé de sapato velho estranho. A primeira coisa que pensei quando cheguei em casa foi em jogá-lo no lixo. Mas pensei bem e achei melhor deixá-lo dentro do porta-malas, para me lembrar do Maurício e odiar ele toda vez que eu olhasse para aquela coisa torta com cadarço esfiapado. Quando ia ao mercado, eu fazia questão de jogar as sacolas por cima dele. O sapato andou no porta-malas por vários meses. Visitou nossos parentes no interior, foi comigo a trabalho para o sul e andou pelos principais pontos da nossa cidade. Mas eu só lembrava dele quando abria o porta-malas e via ele jogado num canto, depois de ter rolado nas curvas. Aliás, eu fazia curvas fortes de propósito só para ouvi-lo rolar e bater na lata do carro. Eu sorria de canto e a Claudinha me olhava de um jeito esquisito.

O tempo foi passando e eu comecei a criar certa simpatia pelo pé de sapato amassado. Sem perceber, parei até de jogar sacolas e caixas por cima dele. Um dia cheguei a brigar com a Claudinha porque ela jogou uma sacola cheia de verduras por cima do sapato. Comecei a fazer curvas leves para que ele não se machucasse dentro do porta-malas.

Certa noite, fiquei horas deitado na cama pensando no sapato todo torto e sujo dentro do porta-malas. Eram quatro horas da madrugada quando saí da cama em silêncio e desci as escadas do prédio até a garagem. Abri o porta-malas como uma criança ansiosa abrindo um pacote de presente. E ele estava lá, abandonado, torto, sujo, amassado e olhando para mim com uma carinha triste. Naquele momento meus olhos encheram de lágrimas e me senti a criatura mais cruel do mundo. Fiquei comovido por tê-lo abandonado ali por tanto tempo. Me senti culpado por tamanha indiferença. Quando voltei à minha consciência, estava sentado no chão da garagem, encostado no pneu sujo do carro e com o sapato no colo. Levantei e comecei a tentar desamassá-lo e desentortá-lo, enquanto subia as escadas tropicando e soluçando. Coloquei-o junto com os meus sapatos, como se pudessem fizer amizade. Deixei ao lado de um sapato de couro legitimo búlgaro que eu adoro e que nem terminei de pagar ainda.

Depois de aceitá-lo e de ver que não havia ficado nenhum receio entre a gente, comecei a engraxá-lo todo sábado, coisa que não fazia nem com os meus. Demorei em me atinar e olhar a etiqueta para ver a sua marca. Para minha surpresa, ele é um sapato de pedigree mesmo! E de couro legítimo! Não sei como pude odiar e desdenhar por tanto tempo um sapato assim.

Num domingo acordei de madrugada para assistir a corrida na TV e levei-o junto para o sofá para assistir junto comigo. Eu estirado no sofá e o sapato sentado ao meu lado. Com o tempo eu fui me apegando mais a ele. Começamos a assistir juntos aos jogos do Mengão. Quando a Claudinha está em casa, eu fico descalço e deixo o sapato no chão. A esta altura ela nem lembra mais que aquele sapato não é um dos meus. Quando ela não está em casa, ele assiste TV em cima do sofá. Nos passeios de fim de semana ele sempre vai junto, na sua caixinha nova, dentro do porta-malas. Queria que ele aparecesse nas fotos, mas tenho medo que o Maurício veja no facebook e lembre dele. Esses dias o Maurício ligou lá e casa e deixou recado com a Claudinha. Não retornei a ligação, tenho medo que ele peça o sapato de volta. Não admito que de uma hora para a outra ele leve-o embora, depois de tudo o que eu fiz pelo pé de sapato. Semana passada eu bloqueei o Maurício em todas as minhas Redes Sociais. Ontem não fui ao casamento de um grande amigo que temos e comum, tenho medo de encontrar o Maurício. Na verdade, me afastei dos meus melhores amigos, eles não entenderiam e teceriam duras críticas aos costumes do sapato. Prefiro assistir futebol com ele e não precisar me explicar. Paciência. Aliás, o dia que a Claudinha descobrir, eu saio de casa com ele. Ela não vai entender. E eu não abro mão dele. Jamais.

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Abandono

Posted: 4th August 2010 by buzzz in 1
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Sempre imaginei que a sala de espera de um orfanato fosse realmente fria e angustiante. Sinto como se estivesse na sala de espera da maternidade, na terrível da espera do meu primeiro filho. Os médicos rasgando a sala e expressando feições tão sérias que não se conclui se é a criança quem nasceu ou a mãe quem morreu. Parece que a qualquer momento um médico vai empurrar a porta do centro cirurgico com as costas, revelando suas mãos suspensas com as luvas cheias de sangue, balançando a cabeça negativamente. Mas que bobagem estou falando, nunca estive em uma maternidade. Até hoje não consegui ter filhos ou mesmo me casar. Nunca convenci uma mulher a contrair matrimônio, muito menos a sofrer um parto por minha causa. Talvez porque na época em que me preocupei com isso já era muito tarde. Para quem começou a pensar em filhos só depois dos 50 anos, talvez tenha sido muito terde mesmo. Mas talvez eu não tenha procurado uma candidata nos lugares corretos. Talvez, talvez, talvez, nunca tive mesmo certeza de nada. Comecei ensaiando meus discursos casamenteiros com as meninas da Dona Mirlei. Pensava ser importante ensaiar bastante antes de conversar com as meninas de verdade. Talvez o problema é que nunca me senti seguro para falar com as meninas de verdade. Treinei demais e no final nunca tive coragem. Idiotice. Insegurança. Hoje, insignificante. É claro que a esta altura da vida já desisti das estranhas, me conformei em fantasiar que estou casado quando estou na companhia das meninas. Pega um copo d’água para mim, menina? São mais obedientes que as esposas. Minhas últimas investidas foram tentando convencer uma das meninas da Mirlei a se casar comigo e gerar alguns filhos neste mundo louco. Quer se casar comigo, menina? Seguro a mão dela no momento em que me entrega o copo gelado. Elas me ignoram. São mais sinicas que as esposas. Mas a esta altura, com os meus 78 anos de pura artrose, entendo que elas não tenham interesse mesmo. Nunca pude participar das conversas, nas rodinhas, quando os homens começam a discorrer sobre o mito de como as mulheres são complicadas. Nunca pude comprovar tal fenômeno na prática. As que se relacionaram comigo nunca demonstraram complicações que não fossem resolvidas com uma nota de dinheiro ou até mesmo alguns níqueis. Tudo sempre dependeu da oferta e da demanda, de ambos. É silenciosa e tranquila a sala de espera deste orfanato. Ouve-se as crianças de longe, um som abafado que não chega a incomodar. Mas acho que já está na hora de ir andando. Não fosse esta bendita salinha de espera para eu descançar no caminho de casa, acho que não aguentaria dar esta volta na quadra toda semana. Já se acostumaram em me ver aqui descançando e mijando pra fora do vaso. Nem me perguntam mais se estou esperando alguém ou pecisando de alguma informação. Só me deixam descançar. O pior que as vezes acabo tirando um cochilinho involuntário. Mas ninguém nunca vem aqui mesmo. Se eu morro sentado aqui, vai demorar até alguém perceber que o velho se foi.

Curitiba, 03 de agosto de 2010

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No cruzamento das Marechais

Posted: 27th April 2010 by buzzz in 1
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Ele relatou o caso à Gazeta na semana passada, mas o Jornal achou melhor não publicar. Uma porque a história é sim um pouco esquisita, outra, porque nenhum repórter teve coragem de ir até o local para comprovar. Saudades do Caco Barcelos.

Eram 15 horas da terça-feira, o Otávio passava rápido por ali, estava saindo de um cliente e indo para outro, um pouco atrasado. Frio como sempre, o Otávio de terninho marrom e sua inconfundível pastinha surrada de vendedor. Cruzamento das Marechais, sinal vermelho para os pedestres e o Otávio atravessou a rua correndo, olhando para trás com medo de morrer ali mesmo, na frente da loja de fotos. E foi por correr olhando para trás que o Otávio não viu onde caiu, despencou uns 4 metros para baixo. Durante a queda amaldiçoou o sem vergonha que havia deixado o bueiro aberto, na certa foi almoçar e deixou o buraco ao léu. Mas no principal cruzamento da cidade? Maldito.

É incrível o poder que temos de pensar tanta coisa em tão pouco tempo, o Otávio relatou que durante a queda, além de xingar o suposto infeliz que deixou o buraco aberto, ainda lembrou que depois do expediente tinha que passar no mercado comprar uns 10 itens para a patroa e que ao invés de estar em queda livre naquele momento, ele deveria é estar na Boca engraxando o sapato que há semanas estava numa caca só, tudo isso ele pensou em apenas dois segundos. Mas a questão é que o Otávio caiu de bunda no chão e não como nos filmes, onde os bueiros são cheios de água, o que amorteceria o impacto da bunda.

Em pé novamente, o Otávio olhou para o buracão lá em cima e viu as nuvens passando no céu nublado. Não havia onde se agarrar para subir, o negócio era seguir em frente e achar uma saída. Ele conta que estava sentindo um calorzão danado, não sabia bem se era a soma da raiva com o impacto ou se as galerias subterrâneas é que eram realmente quentes. Caminhando pela galeria, seguiu em frente, imaginou que estava caminhando em direção à Praça Osório. Não havia nenhuma conexão, nem escadas, só restava caminhar no tubo fechado. O tubo parecia ser feito de Inox, bonito, muito brilhante. Um luxo para ficar debaixo da terra.

Cinco minutos de caminhada e o Otávio, graças a Deus, encontrou uma porta à esquerda. Ele abre a porta procurando uma saída, e lá está o que ninguém quis averiguar. Ele relatou que o calor que vinha de dentro da porta era realmente infernal, mas não era insuportável, tanto que o Otávio entrou porta adentro, sua única opção no momento, já que o tubo principal não tinha outra saída.

Bem, da porta surgia uma escada de marinheiro dourada, enquanto ele descia, olhava para baixo, mas parou quando notou que aquela sala gigante parecia um lounge. O ambiente tinha luzes vermelhas fracas e um som alto de música eletrônica vinha do outro lado da parede oposta, lá no chão um jogo se sofás vermelhos em formatos exóticos e mesas de centro, além de copos com bebidas espalhados pelo local. Ele ficou ali parado. “Subo ou desço? Ai caracas, que lugar é esse?”. De repente, a porta se abre e o som de música eletrônica invade a sala, o Otávio ali paralisado, segurando a sua pastinha. Labaredas de fogo saíam da porta e entravam na sala até que a porta foi fechada.

Entrou na sala o maior cara que o Otávio já viu na vida dele, musculoso e sem camisa, parecia uma caricatura. Ele e mais dois camaradas de terno preto. O Otávio jura que o cara era vermelho, mas eu acho que era a luz do lugar que dava um efeito especial. O cara grande sentou no sofá e começou a falar com os outros dois. O Otávio jura que o cara grande tinha um rabo pontudo, mas na situação dele, até eu teria estes delírios. Durante a conversa, um dos caras abriu uma maleta cheia de dinheiro e empurrou para o lado do grandão. O Otávio jura que o cara vermelho tinha dois chifres na testa, mas eu já fui em raves e sei como esse povo se veste, o Otávio é que é um ultrapassado e não conhece o comportamento dos jovens.

Após uma breve conversa, o cara sem camisa fechou a maleta e apertou a mão dos caras de terno. Ele levantou, pegou da frente do sofá um tridente (o Otávio é um pouco exagerado, chamar bengala de tridente) e voltou com a maleta para a sala das labaredas. Os caras de terno levantaram logo depois e seguiram na direção oposta. Saíram por outra porta.

Assim que todos desapareceram, o Otávio subiu correndo a escada e voltou para o tubo. Começou a correr na direção que ele achava que ficava a Praça Osório. Parou de repente quando viu outra escada dourada e um clarão lá em cima. Não pensou duas vezes e subiu pela escada. Vinte minutos de subida e o Otávio saiu dentro de um banheiro, do lado de uma privada. Entrou no banheiro e fechou o buraco de onde ele saiu com duas lajotas que estavam do lado. Abriu a porta do banheiro e viu que estava dentro do Shopping Cidade. O Otávio voltou para dentro do banheiro, tirou a sujeira do terno e da pasta. Lavou o rosto e as mãos e ajeitou o cabelo. Saindo novamente do banheiro, lembrou de um cliente que tem uma loja dentro do Shopping. Aproveitou que estava ali e foi fazer uma visita para o cliente. O Otávio é um vendedor atencioso.

A Gazeta não quis publicar, mas eu prometi para o Otávio que publicaria. Se alguém puder ir até o local e confirmar a história, favor me avisar. Sempre é bom ter um segundo ponto de vista. O Otávio só pediu para avisar que ele voltou ontem no cruzamento das Marechais para olhar o buraco, mas segundo ele, não tem buraco nenhum.

Originalmente publicado em: Oct 17, 2005

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No meio do caminho (a narrativa)

Posted: 27th April 2010 by buzzz in 1
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Lei da ação e reação. A ação: um fator simples. No meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho. Tinha uma pedra. A reação: não demorou mais de um centésimo de segundo, mas com uma complexidade incrível e a finalização perfeita. Uma reação inesperada vindo de um ser com retinas tão fatigadas.

Começou com a pele do dedão do pé que ‘sentiu na pele’ o acontecido e resolveu pedir uma solução para o cérebro, o dedão queria uma resposta, uma reação à altura da topada. A pele transferiu a informação do acontecido para o nervo que ouviu com atenção qual era a necessidade do dedão. O nervo, como um telégrafo, mandou uma mensagem pela sua extensão que aproveitou o sinal aberto e entrou pela via direita da perna esquerda, passou pelo quadril e por todo o corpo, não demorou mais que milésimos de segundo para fazer todo o trajeto. Conforme a solicitação do pé, o nervo passou pelo coração para perguntar sua opinião, anotou a sugestão de resposta, agradeceu respeitosamente e continuou seu trajeto. Subiu, subiu, subiu e chegou até o pescoço, procurando por um tal de ‘cérebro’. O nervo, muito calmo, não quis atrapalhar o trabalho do órgão pensante, por isso entrou em contato com pouco mais de 100 bilhões de células nervosas explicando rapidamente a situação e elas tiveram a incumbência de comunicar com clareza aos neurônios, funcionários do cérebro, o que havia acontecido. Não se sabe como, mas a informação chegou aos neurônios completíssima e eles começaram entre eles um trabalho incrível de emissão de raios muito loucos chamados de sinapses elétricas (isso muito ao som de muito rock ‘n roll).

No momento da aprovação da proposta com o cérebro os neurônios ouviram a resposta de sempre: “esses assuntos sentimentais são com o coração, o que ele aprovar, para mim está bom”. Então os neurônios juntaram ao dossiê a sugestão sentimental do coração, a aprovação (?) do cérebro e um resumo da conversa que tiveram com o ouvido para ver o que ele havia escutado por aí sobre o assunto.

O pessoal formou um pacote com a resposta a ser dada, caracterizando assim uma ‘reação’ à ação efetuada lá no pé. (Tudo desenvolvido sob pressão e em milésimos de segundo). O pacote de informações foi embrulhado para viagem em papel reciclável e de fácil abertura. Destinatário: Sr. diafragma.

O pacote foi devolvido ao nervo (espécie de motoboy orgânico), que colocou o pacote desenvolvido, a partir dos raios elétricos emitidos pelos neurônios, em um lugar seguro e encarregou-se de transportar a importância até o local de entrega.

Desta vez, sem precisar viajar por todo o corpo, o nervo pegou um atalho, fazendo um caminho mais curto, pegou a aprovação final do coração e chegou até o diafragma, sem trânsito, onde dali o pacote seria lançado como um foguete para chegar ao destino no tempo ideal. Tudo isso em milésimos de segundo.

O diafragma juntou todas as suas forças e de peito estufado deu um toque para os pulmões, tipo: “Vamos botar para quebrar” ou “Rock and Roll Baby”, sei lá, sei que o sentimento era esse. O pacote foi aberto pelo diafragma e a encomenda se espalhou de forma ordenada, formando a seqüência perfeita conforme o coração havia aprovado. O diafragma impulsionou tudo para cima, só não sei dizer se foi enviado via laringe ou faringe, mas sei dizer que chegou no lugar certo sem perder a força. As cordas vocais afinadas treinaram antes de entrar em ação e após terem certeza de que a resposta estava pronta para ser emitida elas mandaram o sinal.

A garganta empurrou como uma mola, a língua contorceu-se como deveria ser feito. A sincronia entre mandíbula, língua e lábios foi um trabalho extremamente profissional, coisa de quem trabalha junto há anos. E deu no que deu, o pacote criado pelos criativos neurônios formou a reação perfeita como resposta à topada da pedra, e a voz, que faz dupla com as cordas vocais, encarregou-se de finalizar o trabalho perfeitamente.

Todos aguardavam com expectativa quando a resposta saiu pela boca e tomou o exterior de modo fantástico, tudo conforme planejado. Todos tinham a certeza de que a solução criada para responder a topada na pedra era a resposta perfeita para a situação. E tudo o que você acabou de ler foi baseado em fatos reais e não demorou mais de um centésimo de segundo, até que, no momento em que o dedão do pé já começava a doer, a resposta criada pelos neurônios saiu pela boca do humano:

-         Filha da puta!

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Originalmente publicado em:  Sep 7, 2005

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Cheque

Posted: 18th March 2008 by buzzz in Uncategorized
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Tomou o café e pediu para pagar a conta da semana em cheque. Cheque? Seu Maneco coçou o bigode com a unha grande que cultivava no mindinho, só no mindinho. Adalberto não esperou a resposta do dono da padaria. Tomou o último gole do café da manhã, o fundinho do copo, mais açúcar que café, e começou a preencher o cheque especial. Cliente desde 2005, banco com nome de estrangeiro, tirado como que em câmera lenta do bolso do terno caro e escuro do Adalberto. O Maneco debruçado no balcão, molhando a barra da camisa que arrastava na pia, esticava o pescoço.
- Desculpa aí, seu Maneco! – Adalberto deixou o cheque no balcão com um tapa e saiu falando um tchau já de costas, por cima do ombro.
O Maneco arregalou o olho direito, pegou a porra do cheque com outro tapa e colocou na velha gaveta do caixa bagunçado. Seu Maneco viu a moto velha roncando e vindo de costas para o meio-fio. Desce o motoboy e entrega para o Maneco a nota fiscal do fornecedor de frios. Cobrança em carteira. O motoboy olha os salgados na estufinha, enquanto debruça o braço na pança de fritura, sem tirar o capacete. O Maneco vai até o caixa, pega um dinheiro e completa o pagamento com o cheque do Adalberto. O motoboy pega o bolo de dinheiro com o cheque, coloca na pochete e grita um tchau meio Darth Vader por debaixo do capacete preto de viseira fumê. A fumaça preta que toma conta do boteco quando o motoboy liga a velha moto é o que mais irrita seu Maneco.

……………..

Com a audácia de um rato atravessando uma sala cheia de gatos famintos, o Motoboy passa pelos carros parados no semáforo e freia em cima da faixa de pedestres. Apito. Encosta. Fodeu.
- Tá com pressa garoto? – O policial Marlon vai se aproximando da moto, já parada em cima da calçada. Mãos na cintura, polegares enroscados na cinta. Anda como se estivesse cagado, com as pernas abertas, duras e lentas.
- Desculpa seu guarda, mas eu parei na pontinha da faixa. A roda quase nem estava encostando.
- Ah, é… Prova… – Puxa o bloquinho do bolso, sorriso maroto de canto, caneta Bic com a tampa mordida pelos dentes tortos, cobertos pela sombra do Ray-ban pirata.
- Mas, seu guarda, a moto nem é minha, o senhor precisa me ajudar…
O policial, como um surdo, vai para trás da moto olhar a placa enquanto preenche a folha amarela do bloquinho. Toca o celular do motoboy.
- Alô.
- Onde você está moleque, já cobrou o Manuel?
- Ta na mão, seu Ademir. Mas é que eu estou com um problema com a moto no trânsito. Parei na faixa e tinha um guarda por perto e…
- Porra moleque! Dá uma grana pro homem e vem embora, estou precisando deste dinheiro.
- O chefe Ademir desliga o telefone. Um homem prático.
- Seu guarda, eu estou com pressa. Será que o senhor poderia me ajudar? – O motoboy estica o braço com o cheque do café em direção ao policial. O policial nem olha o valor, só puxa o cheque da mão do motoboy e fala baixinho.
- Sai daqui garoto, vai trabalhar, vai. O motoboy arranca e segue seu caminho. O policial enfia o cheque no bolso e volta a observar o trânsito com uma preguiça de um executivo em tarde de sexta-feira.

…………….

Fim de expediente. O policial Marlon tira seu uniforme com o tecido duro de suor de um dia inteiro no sol e sai andando a pé pela calçada. Enroscando na camisa o anel dourado com uma grande pedra roxa, tira o cheque do bolso. Cliente desde 2005, banco com nome estrangeiro. Quinze reais! Que merda. Desvia do caminho de casa, subindo a ladeira da rua do Fofão, traficante que lhe deve favores. Entra na sala comercial e dá sorte de encontrar o Fofão lá dentro dando instruções para um funcionário. Não pode marcar bobeira ficando muito tempo por ali, vai direto ao assunto.
- Oh, Fofão. Tô precisando que você troque esse cheque pra mim. – Marlon joga o cheque em cima da mesa.
O Fofão põe a mão em cima do cheque e arrasta para o funcionário. O funcionário se estica, olha o valor do cheque.
- Que merda.
Mete a mão no bolso e entrega quinze reais em dinheiro para o colega Marlon.
- Falou, Fofão. Até mais.
Sai da sala, olhando para os lados, colocando o Ray-ban.

…………….

Thiago estaciona o carro do pai do outro lado da rua e sobe a ladeira. Entra na sala, cumprimenta com a cabeça e coloca R$ 50,00 em cima da mesa.
- Vê trinta e cinco pra mim.
Thiago é cliente antigo do Fofão, desde o tempo em que o próprio atendia a clientela.
- Tô sem troco, meu. Só tenho esse cheque aqui de quinzão. – o funcionário coloca a mercadoria e o cheque, lado a lado em cima da mesa.
- Ah, foda-se.
O menino dá com os ombros, pega o cheque e a mercadoria. Não pode marcar bobeira ficando muito tempo por ali. Thiago volta para casa e entrega a chave do carro para o pai.
- Colocou gasolina?
- Putz véio, esqueci. – Coloca a mão no bolso, tira o cheque e dá na mão do pai. – Pega esse cheque do… – Lê o nome no cheque – …do Adalberto. Ele estava me devendo.
O véio olha para o cheque. Cliente desde 2005, banco com nome de estrangeiro. Coloca o cheque no bolso de trás da calça e vai para a garagem.

…………….

Depois que a Valéria morreu, o véio não quis saber de casar de novo. O Thiago não iria aceitar. Pode até ser uma desculpa, mas ele se confortava assim. Pegou o carro e foi para o Café Amélia, precisava tomar alguma coisa e ver alguma coisa dançando. Tomou tudo o que podia e o que não podia. Como sempre, já estava saindo sem saber o que devia. O dono do lugar foi atrás para falar com o véio, que já estava dentro do carro.
- Quando vamos acertar suas contas?
- Quando minha mulher sair da terra.
- Não vou mais deixar você entrar aqui, não está certo.
O véio levanta a bunda do banco do carro, tira o cheque amassado e coloca na mão do dono do lugar, enquanto fala com um sorriso bêbado:
- Pra quem não ia receber nada, isso já está bom… Até amanhã. O véio arranca o carro e vai embora, deixando para o dono do café uma nuvem de poeira e o cheque amassado.

…………….

Fim de noite, hora de acertar as contas com as dançarinas do café. Como de costume, o dono paga as meninas com o que tem no caixa. Reais, cheques, dólares, relógios de pulso, promissórias, o que tiver. Para as moças que ele buscou no nordeste porque estavam passando fome, não existe motivos para reclamar. O negócio é pegar o seu pagamento do jeito que for e se virar para usar o dinheiro ou o que sobrar dele. Maria Alice recebe os quinze reais da noite com o cheque, Cliente desde 2005, banco com nome de estrangeiro. Não reclama, já pegou coisa pior ali naquele café.

…………….

Já é de manhã quando Maria Alice sai do Café Amélia e vai para a padaria, para tomar um café. Um café doce, daqueles que no último gole tem mais açúcar que café. Maria Alice, toda manhã, é a primeira cliente da padaria. O português já conhece sua triste história, dos dias que Maria Alice chega ali ainda bêbada e desanda a falar de seu passado. E o português é obrigado a ouvir a mesma história daquela boca bêbada e suja, pelo menos uma vez por semana. Nas primeiras vezes que ela quis pagar o Maneco com cheques que recebia no Café Amélia, seu Maneco ficava olhando para ela e coçava o bigode com a unha grande que cultivava no mindinho, só no mindinho. Mas com o tempo, com dó da menina, deixou isso virar rotina. E já não se importa mais em perder um pouco de dinheiro para ajudar a triste Maria Alice.
- Toma seu Maneco, esse cheque paga os cafés da semana que estou lhe devendo.
Seu Maneco pegou a porra do cheque de quinze reais sem olhar muito e enfiou na velha gaveta do caixa bagunçado. Já tinha se acostumado com os cheques sem fundo que Maria Alice lhe repassava. Não adiantava olhar para o cheque, era fria na certa.

…………….

Maria Alice sai do bar e esbarra no Adalberto, que entrava de cabeça baixa. Era outro Adalberto, sem a parte de cima do terno. Meio sem jeito, “não, obrigado”, agradeceu o café que o Maneco ofereceu. Senta e fica dois segundos calado até falar.
- Oh, Maneco. Você lembra que esses dias eu te paguei com um cheque?
O Maneco fica olhando, com cara de “Você acha que é o único sacana que paga cafezinho com cheque?
- Então, Maneco, não vai dar para cobrir o cheque. Se você localizar ele, você me liga?
O Maneco abre a gaveta do caixa, fuça e encontra um único cheque na gaveta. O cheque do Adalberto. O Maneco deixa o cheque no balcão com um tapa e fala um tchau já de costas, por cima do ombro.
- Valeu Maneco, outra hora eu te pago. – E saiu.
O Maneco arregalou o olho direito, e com um tapa fechou a velha gaveta do caixa bagunçado.

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VIRGÍNIA ALOVAK

Posted: 17th March 2008 by buzzz in Uncategorized
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Ele assistia àquela novela todos os santos dias, aliás, há longos 10 anos, ele assistia todas as novelas que tinham no elenco alguma personagem representada pela inspiradora Virgínia Alovak, e desta vez, seu amor platônico chamava-se Vera.

Solteiro, nunca casou por causa da doce Virgínia, as personagens dela foram sempre meigas e perfeitas, o que fez com que ele nunca conseguisse se interessar por uma mulher de verdade, elas foram sempre inferiores às personagens globais de Virgínia.

O amor televisivo por Virginia fazia com que ele tivesse o coração acelerado toda noite ao chegar em casa após o trabalho, pois ligava a TV só para ver a sua amada. Era sua rotina alternativa, para ele, a melhor opção em vez de ter uma mulher de verdade lhe esperando em casa. Paixão caliente.

Para ele, era como estar casado. Ele comentava com os amigos as manias da esposa, da Virgínia; olhando as vitrines no centro ele imaginava sua esposa dentro dos belos vestidos, o corpo de Virgínia; na livraria comprava os livros que ela gostaria de ler, a sensibilidade aguçada Virgínia.

Naquela noite, ele chegou em casa correndo, atrasado, com medo que Virgínia (ou Vera) já tivesse ido embora. Liga a TV enquanto senta aflito no sofá, olho no relógio, ainda dá tempo, a imagem custa a aparecer (aparelhos modernos de merda), a voz vem antes e, sim, é a voz dela. A sedosa voz de Virgínia. Não demora e a imagem começa a aparece. Ele relaxa os olhos deixando o farol baixo, correspondendo ao olhar sexy dela. Ele olha e afunda seu rosto na mão direita apoiando o queixo, o olhar bobo e apaixonado:

- Te amo Virgínia – Sussurra ele com voz melosa.

- Como é bom ver você. Prometa nunca ir embora da minha vida (leia-se televisão), prometa nunca se aposentar. Virgínia, Virgínia. – Ele repete o nome dela como se referindo a um órgão sexual, é o êxtase.

- Vou sentir saudades até a próxima novela estrear. – Era o último capítulo de ‘Amada Minha’.

Naquela noite ele teve o sonho que sempre esperou. Ele sonha com Virgínia. Mas não era a Virgínia pessoa, era uma personagem inédita, desta vez ela era Maura.

Era o papel que ele sempre esperou que algum diretor a chamasse para fazer, o papel de esposa do sonhador. O sonho era maravilhoso.

Um dia de férias com muito dinheiro, sexo e diversão a dois. Na volta das férias ele precisou voltar antes para trabalhar, a despedida foi como as cenas de novela. Choro, lágrimas e palavras vibrantes de amor. Ele parte e aguarda sue amada ligar no meio da semana para buscá-la no aeroporto.

Cena do sonho 2: Ele está em casa dormindo e o telefone toca, ele vira-se na cama para atender e… Ele cai da cama e acorda (idiota), quase sonâmbulo, cai ao tentar atender o telefone ao lado da cama do sonho. Ao cair e acordar com a porrada, ele descobre que na vida real seu telefone está mesmo tocando. Que confusão. Ele atende.

- Alô! – Atende puto com o imbecil que o acorda no meio do melhor sonho da sua vida.

- Alô neném, esqueceu sua Maurazinha no aeroporto?

- …

- Neném, você está acordado? Pode responder se já está vindo, por favor?

- …

Sem falar nada, ele desliga o telefone e fica parado com cara de paisagem. ‘Maurazinha’? ‘Neném’? ‘Aeroporto’?

- Será que eu estou dormindo?

Ele levanta e vai lavar o rosto. Não entende nada e não sabe o que fazer. Ir ao aeroporto, voltar a dormir? E agora? Ele tinha certeza que o telefonema era real, não sabia o que pensar. Sem opção, ele vai ao aeroporto…

Quando sobe a rampa de desembarque, ele confirma o que duvidava, era ela, Virgínia Alovak. Ela vira, sorri para ele (como uma cena de novela editada em câmera lenta) e com sua bagagem de mão, corre alegre em sua direção. Ele fica ali parado, sem entender nada. Um abraço apertado e o beijo mais gostoso que ele já sentiu. Era impossível de acreditar, depois de 10 anos sonhando, Virgínia Alovak aparece na sua vida encarnando a personagem Maura, o que estava acontecendo.

Ele chega em casa e ela age naturalmente, comenta a viagem e diz que já estava morrendo de saudades.

Já faz 20 anos que este episódio aconteceu. Depois do capítulo final de ‘Amada Minha’, Virgínia Alovak nunca mais apareceu em novelas, entrevistas, reprises ou revistas. Um mistério que ele nunca procurou entender e também nunca quis perguntar para sua Maura. Nada disso importa, o que importa é que agora ela era real e a vida dele estava completa.

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