Monday, August 15, 2005

Cansei - Côntoles

Foi eleita a igreja mais bonita da cidade, voto do povo. Tinha o altar mais lindo já visto pelos olhos dos habitantes daquela redondeza, uma verdadeira maravilha celestial. O filho do onipotente, onipresente, onisciente, e essa coisa toda, estava lá, no altar, entalhado em pedra, como uma bela escultura medieval ituana. Era gigante, tinha mais de três metros de altura, robusta passava a sensação real, do inimaginável, do poder representado por Ele. Nada de pregar o cara na cruz ou entalhá-lo fazendo expressão de dor, era uma escultura fantástica, que flutuava sobre o altar, abençoando o rebanho que comparecia diariamente.

 

Naquele dia a missa foi normal. Hinos empolgantes, violões desafinados, garotas em coro, enfeitadas como em noite de gala, cantavam uma missa nos conformes.

 

Já estava no sermão, salientando o que havia lido anteriormente. Esclareceu o trecho “a pedra lançada por Pedro na noite da reunião com o louvado”. Deixou claro que essa era uma mensagem do divino, na qual podemos extrair uma lição de vida, “todos os medos da humanidade representam uma ligação com o passado representado pela pedra” e, portanto, “não deixem sua pedra cair”, repetiu o sacerdote doze vezes durante o sermão. Cada vez frisava e exaltava mais a necessidade de segurar a pedra para garantir um futuro abençoado. Tudo caminhava normalmente, o sermão chegava a um final perfeito. O Credo já estava para começar e a frase “todos em pé” estava para acordar os fiéis que teimavam em dormir ao longo da pregação, foi quando algo aconteceu.

 

O estrondo foi forte, o piso tremeu, as paredes atrás do altar resistiram, os fiéis ficaram sem reação. Foram três segundos assustadores, em que ninguém saiu da igreja. Quando alguns viram, começaram a se ajoelhar e a rezar, outros choravam e outros pensaram viver um pesadelo. A estátua de pedra caiu em pé no chão, levantou levemente a cabeça, olhou para o sacerdote e disse rápido e em voz baixa: ‘cansei’. Após declarar esta frase enigmática, saiu pela porta atrás do altar, dirigiu-se até um quartinho localizado nos fundos da igreja, deitou-se em uma cama de solteiro e descansou um pouco.

Conto escrito com três mãos: Duas minhas e uma do Felippe Motta (www.literaturadebordel.blogspot.com

Posted by buzzz in 19:41:01
Comments

Leave a Reply