Wednesday, September 7, 2005

No meio do caminho (a narrativa) __ Côntoles

Lei da ação e reação. A ação: um fator simples. No meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho. Tinha uma pedra. A reação: não demorou mais de um centésimo de segundo, mas com uma complexidade incrível e a finalização perfeita. Uma reação inesperada vindo de um ser com retinas tão fatigadas.

            Começou com a pele do dedão do pé que ’sentiu na pele’ o acontecido e resolveu pedir uma solução para o cérebro, o dedão queria uma resposta, uma reação à altura da topada. A pele transferiu a informação do acontecido para o nervo que ouviu com atenção qual era a necessidade do dedão. O nervo, como um telégrafo, mandou uma mensagem pela sua extensão que aproveitou o sinal aberto e entrou pela via direita da perna esquerda, passou pelo quadril e por todo o corpo, não demorou mais que milésimos de segundo para fazer todo o trajeto. Conforme a solicitação do pé, o nervo passou pelo coração para perguntar sua opinião, anotou a sugestão de resposta, agradeceu respeitosamente e continuou seu trajeto. Subiu, subiu, subiu e chegou até o pescoço, procurando por um tal de ‘cérebro’. O nervo, muito calmo, não quis atrapalhar o trabalho do órgão pensante, por isso entrou em contato com pouco mais de 100 bilhões de células nervosas explicando rapidamente a situação e elas tiveram a incumbência de comunicar com clareza aos neurônios, funcionários do cérebro, o que havia acontecido. Não se sabe como, mas a informação chegou aos neurônios completíssima e eles começaram entre eles um trabalho incrível de emissão de raios muito loucos chamados de sinapses elétricas (isso muito ao som de muito rock ‘n roll).

No momento da aprovação da proposta com o cérebro os neurônios ouviram a resposta de sempre: “esses assuntos sentimentais são com o coração, o que ele aprovar, para mim está bom”. Então os neurônios juntaram ao dossiê a sugestão sentimental do coração, a aprovação (?) do cérebro e um resumo da conversa que tiveram com o ouvido para ver o que ele havia escutado por aí sobre o assunto.

O pessoal formou um pacote com a resposta a ser dada, caracterizando assim uma ‘reação’ à ação efetuada lá no pé. (Tudo desenvolvido sob pressão e em milésimos de segundo). O pacote de informações foi embrulhado para viagem em papel reciclável e de fácil abertura. Destinatário: Sr. diafragma.

O pacote foi devolvido ao nervo (espécie de motoboy orgânico), que colocou o pacote desenvolvido, a partir dos raios elétricos emitidos pelos neurônios, em um lugar seguro e encarregou-se de transportar a importância até o local de entrega.

            Desta vez, sem precisar viajar por todo o corpo, o nervo pegou um atalho, fazendo um caminho mais curto, pegou a aprovação final do coração e chegou até o diafragma, sem trânsito, onde dali o pacote seria lançado como um foguete para chegar ao destino no tempo ideal. Tudo isso em milésimos de segundo.

            O diafragma juntou todas as suas forças e de peito estufado deu um toque para os pulmões, tipo: “Vamos botar para quebrar” ou “Rock and Roll Baby”, sei lá, sei que o sentimento era esse. O pacote foi aberto pelo diafragma e a encomenda se espalhou de forma ordenada, formando a seqüência perfeita conforme o coração havia aprovado. O diafragma impulsionou tudo para cima, só não sei dizer se foi enviado via laringe ou faringe, mas sei dizer que chegou no lugar certo sem perder a força. As cordas vocais afinadas treinaram antes de entrar em ação e após terem certeza de que a resposta estava pronta para ser emitida elas mandaram o sinal.

A garganta empurrou como uma mola, a língua contorceu-se como deveria ser feito. A sincronia entre mandíbula, língua e lábios foi um trabalho extremamente profissional, coisa de quem trabalha junto há anos. E deu no que deu, o pacote criado pelos criativos neurônios formou a reação perfeita como resposta à topada da pedra, e a voz, que faz dupla com as cordas vocais, encarregou-se de finalizar o trabalho perfeitamente.

Todos aguardavam com expectativa quando a resposta saiu pela boca e tomou o exterior de modo fantástico, tudo conforme planejado. Todos tinham a certeza de que a solução criada para responder a topada na pedra era a resposta perfeita para a situação. E tudo o que você acabou de ler foi baseado em fatos reais e não demorou mais de um centésimo de segundo, até que, no momento em que o dedão do pé já começava a doer, a resposta criada pelos neurônios saiu pela boca do humano:

-         Filha da puta!

Posted by buzzz at 14:59:52 | Permalink | Comments (2)