No cruzamento das Marechais
Ele relatou o caso à Gazeta na semana passada, mas o Jornal achou melhor não publicar. Uma porque a história é sim um pouco esquisita, outra, porque nenhum repórter teve coragem de ir até o local para comprovar. Saudades do Caco Barcelos.
Eram 15 horas da terça-feira, o Otávio passava rápido por ali, estava saindo de um cliente e indo para outro, um pouco atrasado. Frio como sempre, o Otávio de terninho marrom e sua inconfundível pastinha surrada de vendedor. Cruzamento das Marechais, sinal vermelho para os pedestres e o Otávio atravessou a rua correndo, olhando para trás com medo de morrer ali mesmo, na frente da loja de fotos. E foi por correr olhando para trás que o Otávio não viu onde caiu, despencou uns 4 metros para baixo. Durante a queda amaldiçoou o sem vergonha que havia deixado o bueiro aberto, na certa foi almoçar e deixou o buraco ao léu. Mas no principal cruzamento da cidade? Maldito.
É incrível o poder que temos de pensar tanta coisa em tão pouco tempo, o Otávio relatou que durante a queda, além de xingar o suposto infeliz que deixou o buraco aberto, ainda lembrou que depois do expediente tinha que passar no mercado comprar uns 10 itens para a patroa e que ao invés de estar em queda livre naquele momento, ele deveria é estar na Boca engraxando o sapato que há semanas estava numa caca só, tudo isso ele pensou em apenas dois segundos. Mas a questão é que o Otávio caiu de bunda no chão e não como nos filmes, onde os bueiros são cheios de água, o que amorteceria o impacto da bunda.
Em pé novamente, o Otávio olhou para o buracão lá em cima e viu as nuvens passando no céu nublado. Não havia onde se agarrar para subir, o negócio era seguir em frente e achar uma saída. Ele conta que estava sentindo um calorzão danado, não sabia bem se era a soma da raiva com o impacto ou se as galerias subterrâneas é que eram realmente quentes. Caminhando pela galeria, seguiu em frente, imaginou que estava caminhando em direção à Praça Osório. Não havia nenhuma conexão, nem escadas, só restava caminhar no tubo fechado. O tubo parecia ser feito de Inox, bonito, muito brilhante. Um luxo para ficar debaixo da terra.
Cinco minutos de caminhada e o Otávio, graças a Deus, encontrou uma porta à esquerda. Ele abre a porta procurando uma saída, e lá está o que ninguém quis averiguar. Ele relatou que o calor que vinha de dentro da porta era realmente infernal, mas não era insuportável, tanto que o Otávio entrou porta adentro, sua única opção no momento, já que o tubo principal não tinha outra saída.
Bem, da porta surgia uma escada de marinheiro dourada, enquanto ele descia, olhava para baixo, mas parou quando notou que aquela sala gigante parecia um lounge. O ambiente tinha luzes vermelhas fracas e um som alto de música eletrônica vinha do outro lado da parede oposta, lá no chão um jogo se sofás vermelhos em formatos exóticos e mesas de centro, além de copos com bebidas espalhados pelo local. Ele ficou ali parado. “Subo ou desço? Ai caracas, que lugar é esse?”. De repente, a porta se abre e o som de música eletrônica invade a sala, o Otávio ali paralisado, segurando a sua pastinha. Labaredas de fogo saíam da porta e entravam na sala até que a porta foi fechada.
Entrou na sala o maior cara que o Otávio já viu na vida dele, musculoso e sem camisa, parecia uma caricatura. Ele e mais dois camaradas de terno preto. O Otávio jura que o cara era vermelho, mas eu acho que era a luz do lugar que dava um efeito especial. O cara grande sentou no sofá e começou a falar com os outros dois. O Otávio jura que o cara grande tinha um rabo pontudo, mas na situação dele, até eu teria estes delírios. Durante a conversa, um dos caras abriu uma maleta cheia de dinheiro e empurrou para o lado do grandão. O Otávio jura que o cara vermelho tinha dois chifres na testa, mas eu já fui em raves e sei como esse povo se veste, o Otávio é que é um ultrapassado e não conhece o comportamento dos jovens.
Após uma breve conversa, o cara sem camisa fechou a maleta e apertou a mão dos caras de terno. Ele levantou, pegou da frente do sofá um tridente (o Otávio é um pouco exagerado, chamar bengala de tridente) e voltou com a maleta para a sala das labaredas. Os caras de terno levantaram logo depois e seguiram na direção oposta. Saíram por outra porta.
Assim que todos desapareceram, o Otávio subiu correndo a escada e voltou para o tubo. Começou a correr na direção que ele achava que ficava a Praça Osório. Parou de repente quando viu outra escada dourada e um clarão lá em cima. Não pensou duas vezes e subiu pela escada. Vinte minutos de subida e o Otávio saiu dentro de um banheiro, do lado de uma privada. Entrou no banheiro e fechou o buraco de onde ele saiu com duas lajotas que estavam do lado. Abriu a porta do banheiro e viu que estava dentro do Shopping Cidade. O Otávio voltou para dentro do banheiro, tirou a sujeira do terno e da pasta. Lavou o rosto e as mãos e ajeitou o cabelo. Saindo novamente do banheiro, lembrou de um cliente que tem uma loja dentro do Shopping. Aproveitou que estava ali e foi fazer uma visita para o cliente. O Otávio é um vendedor atencioso.
A Gazeta não quis publicar, mas eu prometi para o Otávio que publicaria. Se alguém puder ir até o local e confirmar a história, favor me avisar. Sempre é bom ter um segundo ponto de vista. O Otávio só pediu para avisar que ele voltou ontem no cruzamento das Marechais para olhar o buraco, mas segundo ele, não tem buraco nenhum.