Thursday, December 15, 2005

Conto de Natal

Era seu 35º natal. Não tinha a esperança de ganhar nada, nunca ganhou. Sem esposa, nem filhos. Sem pais nem irmãos. Não, nenhum caso de falecimento coletivo. Foi rebento de uma inseminação artificial em animais clonados. Uma experiência mal sucedida escondida dele até seus 20 anos de idade. A sua mãe, uma cabra albina, ele nunca quis conhecer. Não aceitava ter sido abandonado por ela. 

Quando criança, nunca foi às lojas e shoppings ver Papai Noel. Ficou um trauma, que após 35 anos ele achou que já era a hora de superar.

24 de Dezembro. Levantou cedo e foi à loja de brinquedos do centro para encarar de perto o palhaço natalino e superar o seu problema. Pensou em espancar, fura-lo com um garfo, ou pegá-lo na hora da saída, mas decidiu que iria xingar e esperar uma reação do velhote, dependendo da reação cairiam na porrada ali mesmo, dentro da loja. Sangue e suor, é assim que se tira as coisas a limpo. Chegou de ônibus e desceu a duas quadras da loja lotada. Faixas de promoção, locutores desdentados e músicas da Ivete Sangalo atraindo o público para as promoções de última hora. “Boneca Barbie, só R$ 17,90!”.

Pisou na loja e entrou na fila para ver o Papai Noel, tinha o dobro do tamanho da maior criança na fila. Odiava crianças. A fila demorou uma hora e meia, mas ele estava determinado a encarar o velho barbudo de frente e mandá-lo para o inferno. Não sabia o que iria falar, inventaria na hora. “Seu pau no cú” ou “Seu… Seu… Otáááário”. Sobrou só uma criança na sua frente, ele pensou em desistir, mas o Noel chamou o garoto e ele ficou ali sem escudo para se defender e em instantes o velho de botas gastas chamou:

-         Próximo.

-         Caracas!

-         Olha que visita maravilhosa.

-         Cala a boca, filho da puta. – Pensou.

Fechou os punhos. Como não tinha ensaiado o que iria falar, travou e não sabia por onde começar. Sem pensar, mecanicamente, ele repetiu a atitude das outras crianças. Subiu devagar as escadas e sentou lentamente no colo do Papai Noel. O velho, com um bafo nojento, mandou uma risada característica e enfiou a luva branca encardida no saco enquanto olhava fixamente nos olhos dele. Pegou um punhado de balas e soltou na mão dele. Ele segurou as balas com as duas mãos e não sabia o que fazer. Ele se inclinou em direção ao velho e deu um beijo melado no seu rosto. Sem falar nada, levantou e foi embora. Foi para casa chupando as balas e com lágrimas nos olhos.

 

 

Posted by buzzz at 15:47:47
Comments

One Response to “Conto de Natal”

  1. ahahahahhahahahahahahahaha.. muito engraçado… papai noel filhodaputa! ehehehhe.. tinha q ter enfiado a mão, porra!!!! ehehehhehehhehee

    carinha, bom ano-novo pra ti!

    Lollomafra

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