Sunday, May 27, 2007

Não eram alfinetes _ Côntoles

Espirrou e sentiu picadas na mão. Pulou e sentou rápido na cama, acendeu a luz fraca e amarelada do abajur e olhou para a mão direita. Agulhas. Parecia que haviam saído com o espirro. - Alucinações, alucinações. Estou trabalhando demais. - Levantou, foi até o banheiro e deixou o punhado de agulhas finas em cima da pia molhada. Limpou o pouco de sangue que saíra dos furinhos da mão e voltou a dormir.

Levantou pela manhã atrasado. Passou rápido pelo banheiro, só para jogar uma água gelada no rosto e saiu. No banco de trás do táxi, lembrou das agulhas. Havia passado muito rápido pelo banheiro e não reparou se elas estavam lá. Sonhei? - Atchim! – Colocou a mão na frente, tentando segurar o espirro. – Perdão – Falou ao motorista como se tivesse de boca cheia. E estava. Agulhas. Duas na boca espetando e ele segurando para não gritar. Mais um punhado havia saído e espetava sua mão direita. Dor. Pegou um lenço da pasta, cuspiu as da boca com um pouco de sangue e virou a mão direita sobre o lenço na mão esquerda, sacudiu e elas caíram. Enfiou tudo na pasta. – Que diabos. – Pensava e esfregava as mãos, limpando o sangue no banco do táxi.

Sentou, colocou a pasta em cima da sua mesa, abriu e olhou lá dentro. O lenço ensangüentado furado pelas agulhas. Fechou. Deixou tudo na pasta como estava. Ligou o computador e – Atchim! – Agulhas por toda a mesa, chegaram a fazer barulho. Espirrou tão forte que não sobrou nenhuma na boca. Agulhas por toda a mesa e caindo sobre o chão. Plim, plim, plim, plim…

- Posso te ajudar? – Andréia passava, ouviu o barulho e ajudou a catar as agulhas espalhadas.
- Que bagunça! – Ajudou a moça a catar, segurando um outro espirro.
- Onde eu coloco? – Estava com as agulhas em cima de um maço de papel que carregava.
- Pode deixar em cima da mesa, eu arrumo. Obrigado. Andréia saiu.}

Ele abaixou a cabeça para pensar. Ligou para o médico.

- Doutor? É o Wagner. Estou espirrando coisas esquisitas.
- É o inverno Wagner, seu organismo está expectorando.
- Não doutor, não são catarros. Preciso ir até aí. O senhor precisa ver isso.
- É só uma gripe, meu rapaz. Acupuntura pode ajudar
- Obrigado doutor. Eu ligo mais tarde se precisar.

Durante todo o dia segurou os espirros. Foi para casa e direto para a cama. Antes, pegou três copos e deixou em cima do criado mudo. Antes de adormecer sentiu vontade de espirrar. Rápido. Pegou o copo e colocou na frente – Atchim.- encheu o copo com as agulhas. Deixou de lado. Mais dois copos dariam para passar a noite. Adormeceu.

Acordou, abriu os olhos, e a primeira coisa que viu foram os três copos. Um cheio de agulhas e os outros dois vazios. Levantou e foi ao banheiro se lavar. Em cima da pia estavam as agulhas finas da manhã seguinte. Acendeu a luz e – Atchim. – Colocou as duas mãos na frente. De olhos fechados sentia a dor das agulhas nas mãos. Abriu os olhos e não havia nada, nenhuma agulha. A dor foi uma antecipação do cérebro. Não espirrou mais durante o dia. Espirrou novamente dias depois, sem agulhas nem catarros. Espirro normal. Espirro de saliva. Ligou para o médico para agradecer a orientação e para avisar que a acupuntura resolveu. Na verdade ele não fez acupuntura nenhuma, mas devia satisfações ao médico, mesmo que o médico não o conhecesse. Havia achado seu número aleatoriamente na lista telefônica. O sobrenome Firtzgard lhe passou confiança. De fato, foi o único com quem Wagner pode contar.

Posted by buzzz at 18:57:23 | Permalink | No Comments »