Monday, March 17, 2008

LEMBRANÇAS

             No meu aniversário de 43 anos eu precisava realizar um sonho, soltar um foguete. Ridículo. E podia ser somente um, eu só queria sentir a vibração do meu braço fraco no momento em que o projétil saísse do cilindro de papelão para depois se arrebentar no meio do céu. Mamãe nunca me deixou brincar com estas coisas. Mamãe se foi, o tempo passou e eu havia me esquecido que tinha um sonho a realizar.

           Fui até a loja de fogos e pedi como eu havia lido em um jornal anos atrás. ‘Um três tiros canhão, por favor’. Sem nenhuma palavra o gordinho sorriu de leve, levantando só um lado do bigodinho estreito e foi para a prateleira pegar o arsenal. Paguei e saí antes que ele descobrisse que eu nunca havia comprado um foguete antes. Vergonha.

            Praia das sementes deserta, uma da manhã. Cheguei com a caixa debaixo do braço, ainda na sacolinha da loja de fogos. Eu precisava fazer aquilo sozinho, poderia ser um desastre, eu poderia morrer. Sentei na areia e abri a caixa enquanto equilibrava um dos foguetes entre meus joelhos para não encostar na areia molhada. Comecei a ler as instruções na lateral da caixa, precisava me contorcer, procurando a luz da lua enquanto meus olhos teimavam em perder a linha seguinte. Li as instruções como um soldado atento e ansioso ouvindo de seu general as orientações para detonar uma granada poderosa e letal.

          Levantei, esfregando a areia dos olhos e larguei a caixa no chão. O vento batia forte na sacolinha branca que, segurada pelo peso da caixa, ficou reclamando do frio. Debatia-se e, fazia mais barulho do que as ondas, como se gritasse que aquilo não estava certo. Ela queria fugir como o soldado inimigo que se vê em perigo. Que precisa avisar que algo não está certo.

        Foguete na mão e isqueiro na outra. Olhei para o céu como quem olha para um alvo inimigo movendo-se lenta e silenciosamente. Todo aquele ritual parecia me tornar maior. Não sei bem porque, mas me lembrei do Apocalipse.

          Levantei o foguete na posição indicada enquanto meu pensamento repetia a voz do general orientando os procedimentos. Acendi. O foguete saiu como um tiro que eu pude acompanhar com os olhos. O pedaço de papelão virou uma peça inútil que joguei na areia. Fiquei olhando para cima, pensando que a vibração que eu esperava sentir em meu braço não aconteceu. Mas isso não importava, pois a curva que o foguete fazia no céu era maravilhosa, elíptica e bucólica. Com certeza meus olhos brilhavam e mamãe estava no céu decepcionada olhando aquilo. Não tive tempo de pedir desculpas. Os tiros seguiram uma seqüência com intervalos perfeitos. Bam… Bam… Bam… Eu esperava um silêncio recompensador após os estouros, quando vi cair do céu algo parecendo um corpo que estatelou na água de barriga. Splásh! Corri para a água para acudir. Tirei a camisa e as havaianas, mas quando pisei forte e senti o gelo das pequenas ondas, parei. Lembrei que eu tinha pavor do mar. Fiquei ali parado no rasinho, na ponta dos pés, para ver o que havia acontecido… Um velhinho começou a surgir das ondas, lento e silencioso. Primeiro sua cabeça, bigode e barbas cobertos de areia. Depois surgiu o resto do corpo, as roupas rasgadas e encharcadas que pesavam e dificultavam o andar do velho homem. Em instantes, percebi que não eram roupas rasgadas, eram vestimentas bíblicas e o cara não era um cara, era Deus.

            - É… Puxa… Desculpe ter derrubado você, digo o senhor, Senhor.

            - Idiota, olha o que você fez comigo. Vai demorar horas para me secar. - Falava sem olhar para mim. Magoado?

            - Pode usar minha camiseta para se secar, Senhor. - Arranquei a camisa como oferenda.

            - Obrigado, prefiro meu próprio vento. - E sentou na areia, com olhar fixo para o mar.

 
         Segundos depois, chega seu cajado empurrado pelas ondas, deixando um rastro torto na areia. Peguei o cajado e entreguei para ele, que não agradeceu, levantou e saiu andando pela orla da praia. Fui atrás

      Fui andando ao lado dele de cabeça baixa, sem camisa e chinelos, pensando por onde eu deveria começar a perguntar. Eram tantas questões que deveriam ser respondidas, tantas dúvidas que me perturbavam desde criança, eu não sabia por onde começar. Talvez perguntar se o céu existe, mas isso seria a pior pergunta, pois eu mesmo havia derrubado ele de lá a pouco. Então eu poderia perguntar sobre a veracidade de Adão e Eva, até ali eu achava aquilo uma besteira, mas se ele estava ali, algo tinha que ser verdade. E o pecado contra a castidade? Talvez eu devesse começar a acreditar em tudo, pois a prova viva de tudo estava caminhando sem sandálias ao meu lado. E havia os rastros na areia para provar. Resolvi que não, que eu deveria levantar a cabeça, olhar para ele e dizer: ‘Desculpe por ter duvidado de tudo, obrigado pela vida’. Quando formulei a frase exata e levantei a cabeça, vi que eu já estava andando sozinho.

       Voltei seguindo os dois rastros na areia e me toquei que havia caminhado durante trinta minutos. Apanhei meus havaianas e a caixa de foguetes no mesmo momento em que uma onda apagava os rastros atrás de mim.

            Na volta para casa, desci do carro e joguei a caixa na lixeira da rua. Voltei para o carro, bati a porta e lembrei da mamãe. Percebi que ela tinha razão.

Posted by buzzz at 21:40:22
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