VIRGÍNIA ALOVAK
Ele assistia àquela novela todos os santos dias, aliás, há longos 10 anos, ele assistia todas as novelas que tinham no elenco alguma personagem representada pela inspiradora Virgínia Alovak, e desta vez, seu amor platônico chamava-se Vera.
Solteiro, nunca casou por causa da doce Virgínia, as personagens dela foram sempre meigas e perfeitas, o que fez com que ele nunca conseguisse se interessar por uma mulher de verdade, elas foram sempre inferiores às personagens globais de Virgínia.
O amor televisivo por Virginia fazia com que ele tivesse o coração acelerado toda noite ao chegar em casa após o trabalho, pois ligava a TV só para ver a sua amada. Era sua rotina alternativa, para ele, a melhor opção em vez de ter uma mulher de verdade lhe esperando em casa. Paixão caliente.
Para ele, era como estar casado. Ele comentava com os amigos as manias da esposa, da Virgínia; olhando as vitrines no centro ele imaginava sua esposa dentro dos belos vestidos, o corpo de Virgínia; na livraria comprava os livros que ela gostaria de ler, a sensibilidade aguçada Virgínia.
Naquela noite, ele chegou em casa correndo, atrasado, com medo que Virgínia (ou Vera) já tivesse ido embora. Liga a TV enquanto senta aflito no sofá, olho no relógio, ainda dá tempo, a imagem custa a aparecer (aparelhos modernos de merda), a voz vem antes e, sim, é a voz dela. A sedosa voz de Virgínia. Não demora e a imagem começa a aparece. Ele relaxa os olhos deixando o farol baixo, correspondendo ao olhar sexy dela. Ele olha e afunda seu rosto na mão direita apoiando o queixo, o olhar bobo e apaixonado:
- Te amo Virgínia – Sussurra ele com voz melosa.
- Como é bom ver você. Prometa nunca ir embora da minha vida (leia-se televisão), prometa nunca se aposentar. Virgínia, Virgínia. – Ele repete o nome dela como se referindo a um órgão sexual, é o êxtase.
- Vou sentir saudades até a próxima novela estrear. – Era o último capítulo de ‘Amada Minha’.
Naquela noite ele teve o sonho que sempre esperou. Ele sonha com Virgínia. Mas não era a Virgínia pessoa, era uma personagem inédita, desta vez ela era Maura.
Era o papel que ele sempre esperou que algum diretor a chamasse para fazer, o papel de esposa do sonhador. O sonho era maravilhoso.
Um dia de férias com muito dinheiro, sexo e diversão a dois. Na volta das férias ele precisou voltar antes para trabalhar, a despedida foi como as cenas de novela. Choro, lágrimas e palavras vibrantes de amor. Ele parte e aguarda sue amada ligar no meio da semana para buscá-la no aeroporto.
Cena do sonho 2: Ele está em casa dormindo e o telefone toca, ele vira-se na cama para atender e… Ele cai da cama e acorda (idiota), quase sonâmbulo, cai ao tentar atender o telefone ao lado da cama do sonho. Ao cair e acordar com a porrada, ele descobre que na vida real seu telefone está mesmo tocando. Que confusão. Ele atende.
- Alô! - Atende puto com o imbecil que o acorda no meio do melhor sonho da sua vida.
- Alô neném, esqueceu sua Maurazinha no aeroporto?
- …
- Neném, você está acordado? Pode responder se já está vindo, por favor?
- …
Sem falar nada, ele desliga o telefone e fica parado com cara de paisagem. ‘Maurazinha’? ‘Neném’? ‘Aeroporto’?
- Será que eu estou dormindo?
Ele levanta e vai lavar o rosto. Não entende nada e não sabe o que fazer. Ir ao aeroporto, voltar a dormir? E agora? Ele tinha certeza que o telefonema era real, não sabia o que pensar. Sem opção, ele vai ao aeroporto…
Quando sobe a rampa de desembarque, ele confirma o que duvidava, era ela, Virgínia Alovak. Ela vira, sorri para ele (como uma cena de novela editada em câmera lenta) e com sua bagagem de mão, corre alegre em sua direção. Ele fica ali parado, sem entender nada. Um abraço apertado e o beijo mais gostoso que ele já sentiu. Era impossível de acreditar, depois de 10 anos sonhando, Virgínia Alovak aparece na sua vida encarnando a personagem Maura, o que estava acontecendo.
Ele chega em casa e ela age naturalmente, comenta a viagem e diz que já estava morrendo de saudades.
Já faz 20 anos que este episódio aconteceu. Depois do capítulo final de ‘Amada Minha’, Virgínia Alovak nunca mais apareceu em novelas, entrevistas, reprises ou revistas. Um mistério que ele nunca procurou entender e também nunca quis perguntar para sua Maura. Nada disso importa, o que importa é que agora ela era real e a vida dele estava completa.