Amigo da Onça
Um clássico do cinema mudo. Este filme inspirou o cinema expressionista alemão e as técnicas cinematográficas de Charles Chaplin. “Mudou meu modo de pensar em relação ao cinema profissional”, disse Sergei Eisenstein. (more)
Um clássico do cinema mudo. Este filme inspirou o cinema expressionista alemão e as técnicas cinematográficas de Charles Chaplin. “Mudou meu modo de pensar em relação ao cinema profissional”, disse Sergei Eisenstein. (more)
Aqui não temos novidades. Se você aguenta uma dose de terror, leia o novo conto Perturbado em insanos.blog.com
Mais um personagem com problemas de relacionamento neste mundo aparece nas linhas de www.insanos.blog.com.
“Análises Cínicas” - Um funcionário de laboratório que alimenta seu Rei.
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Era seu 35º natal. Não tinha a esperança de ganhar nada, nunca ganhou. Sem esposa, nem filhos. Sem pais nem irmãos. Não, nenhum caso de falecimento coletivo. Foi rebento de uma inseminação artificial em animais clonados. Uma experiência mal sucedida escondida dele até seus 20 anos de idade. A sua mãe, uma cabra albina, ele nunca quis conhecer. Não aceitava ter sido abandonado por ela.
Quando criança, nunca foi às lojas e shoppings ver Papai Noel. Ficou um trauma, que após 35 anos ele achou que já era a hora de superar.
24 de Dezembro. Levantou cedo e foi à loja de brinquedos do centro para encarar de perto o palhaço natalino e superar o seu problema. Pensou em espancar, fura-lo com um garfo, ou pegá-lo na hora da saída, mas decidiu que iria xingar e esperar uma reação do velhote, dependendo da reação cairiam na porrada ali mesmo, dentro da loja. Sangue e suor, é assim que se tira as coisas a limpo. Chegou de ônibus e desceu a duas quadras da loja lotada. Faixas de promoção, locutores desdentados e músicas da Ivete Sangalo atraindo o público para as promoções de última hora. “Boneca Barbie, só R$ 17,90!”.
Pisou na loja e entrou na fila para ver o Papai Noel, tinha o dobro do tamanho da maior criança na fila. Odiava crianças. A fila demorou uma hora e meia, mas ele estava determinado a encarar o velho barbudo de frente e mandá-lo para o inferno. Não sabia o que iria falar, inventaria na hora. “Seu pau no cú” ou “Seu… Seu… Otáááário”. Sobrou só uma criança na sua frente, ele pensou em desistir, mas o Noel chamou o garoto e ele ficou ali sem escudo para se defender e em instantes o velho de botas gastas chamou:
- Próximo.
- Caracas!
- Olha que visita maravilhosa.
- Cala a boca, filho da puta. – Pensou.
Fechou os punhos. Como não tinha ensaiado o que iria falar, travou e não sabia por onde começar. Sem pensar, mecanicamente, ele repetiu a atitude das outras crianças. Subiu devagar as escadas e sentou lentamente no colo do Papai Noel. O velho, com um bafo nojento, mandou uma risada característica e enfiou a luva branca encardida no saco enquanto olhava fixamente nos olhos dele. Pegou um punhado de balas e soltou na mão dele. Ele segurou as balas com as duas mãos e não sabia o que fazer. Ele se inclinou em direção ao velho e deu um beijo melado no seu rosto. Sem falar nada, levantou e foi embora. Foi para casa chupando as balas e com lágrimas nos olhos.
Foi um tumulto só quando os porcos resolveram convocar todos os outros bichos da fazenda para uma reunião. A pauta: derrubar o sistema atual, onde os bichos mais fracos eram oprimidos e obrigados a cederem aos luxos dos bichos mais fortes, os homens da elite, que governavam a fazenda e moravam na casa principal.
Luiz Inácio do PT, o Partido do Toucinho, era o líder dos porcos e líder da revolução que estava prestes à começar. “Companheiros, nossa luta começa agora, vamos derrubar este sistema dominante. Estes homens que dominam nossa fazenda não podem continuar com estar emporcalhação! Não podemos ceder às regras deste modelo social imposto aqui na fazenda. Estamos trabalhando para estes porcos, digo, idiotas e recebemos o que? Espigas de milho!!! Peço aqui a ajuda de você para organizar esta semana uma eleição para escolhermos quem é que vai governar esta fazenda. Prometo que no meu governo vou acabar com esta porquice toda. Vou redistribuir as rendas desta fazenda. Todos vão ter a oportunidade de ganhar mais, ninguém vai passar fome e todos vão saber para onde vai o dinheiro que os homens daquela casa recebem pelos nossos produtos, pois apresento para vocês meu braço direito, o ministro da casa, José Disse-Eu. E para ajudar a administrar essa pocilga aqui, apresento para vocês o ministro da fazenda, Antônio Pacotti. Companheiros, o Partido do Toucinho foi feito para vocês, trabalhadores que merecem uma fazenda melhor. Companheiros, nesta eleição votem no PT!”
Depois de uma calorosa chuva de aplausos, os macacos da fazenda foram falar com os homens da elite para propor a eleição. Certos de que os porcos do PT não ameaçavam em nada o governo dos homens, eles toparam realizar as eleições. Queriam ver os porcos se lambuzando com a própria lama e chafurdando no caos administrativo que criariam para eles mesmos. Os homens da elite acreditavam que, na próxima eleição, após quatro anos os bichos votariam nos homens novamente para que voltassem a assumir o controle da fazenda.
Realizadas as eleições, os porcos do PT ganharam o aval dos bichos para que assumissem o poder da casa e da fazenda. Resultado: os porcos transferiram a pocilga para dentro da casa e começaram a dividir entre eles os toucinhos que começaram a aparecer. Lambuzaram-se na própria merda. Cada porco começou a roubar o que podia e a comprar os outros porcos para ficar tudo como está. Para os outros bichos a coisa piorou, as espigas de milho de antes agora vinham sem os milhos (que eram comidos pelos porcos) e só sobravam os sabugos, que os bichos não sabiam onde enfiar. Como disse o burro: “Zaratustra falou algo como: ‘Ao líder só falta o poder para que vire um corrupto como os outros’”.
Bem, a fazenda continua uma pocilga como sempre foi, nada mudou. A diferença é que os homens da elite pagaram um tal de Rouberto para ir até a fazenda e colocar a boca no trombone, contando para a fazenda a porquice do PT. Os bichos como sempre, após as denúncias do Rouberto, não sabem o que fazer e estão divididos. Eles acreditam que a salvação da fazenda está nas mãos de uma facção de porcos revolucionários que resolveram fundar um novo partido, o PSOL, Partido dos Suíno Opositores da Lama. O burro anda falando que revolucionário de verdade luta para que um bom governante assuma o comando e não para que o próprio revolucionário assuma. Eu acho que pensar assim é burrice.
O discurso do PSOL me parece muito interessante, estão prometendo acabar com esta porquice toda. Vão redistribuir as rendas da fazenda e todos vão ter a oportunidade de ganhar mais, ninguém vai passar fome e todos vão saber para onde vai o dinheiro que os porcos daquela casa recebem pelos nossos produtos.
Pelo menos, o discurso é novo.
Pato Brasileiro
Operador de Telemarketing
Ele relatou o caso à Gazeta na semana passada, mas o Jornal achou melhor não publicar. Uma porque a história é sim um pouco esquisita, outra, porque nenhum repórter teve coragem de ir até o local para comprovar. Saudades do Caco Barcelos.
Eram 15 horas da terça-feira, o Otávio passava rápido por ali, estava saindo de um cliente e indo para outro, um pouco atrasado. Frio como sempre, o Otávio de terninho marrom e sua inconfundível pastinha surrada de vendedor. Cruzamento das Marechais, sinal vermelho para os pedestres e o Otávio atravessou a rua correndo, olhando para trás com medo de morrer ali mesmo, na frente da loja de fotos. E foi por correr olhando para trás que o Otávio não viu onde caiu, despencou uns 4 metros para baixo. Durante a queda amaldiçoou o sem vergonha que havia deixado o bueiro aberto, na certa foi almoçar e deixou o buraco ao léu. Mas no principal cruzamento da cidade? Maldito.
É incrível o poder que temos de pensar tanta coisa em tão pouco tempo, o Otávio relatou que durante a queda, além de xingar o suposto infeliz que deixou o buraco aberto, ainda lembrou que depois do expediente tinha que passar no mercado comprar uns 10 itens para a patroa e que ao invés de estar em queda livre naquele momento, ele deveria é estar na Boca engraxando o sapato que há semanas estava numa caca só, tudo isso ele pensou em apenas dois segundos. Mas a questão é que o Otávio caiu de bunda no chão e não como nos filmes, onde os bueiros são cheios de água, o que amorteceria o impacto da bunda.
Em pé novamente, o Otávio olhou para o buracão lá em cima e viu as nuvens passando no céu nublado. Não havia onde se agarrar para subir, o negócio era seguir em frente e achar uma saída. Ele conta que estava sentindo um calorzão danado, não sabia bem se era a soma da raiva com o impacto ou se as galerias subterrâneas é que eram realmente quentes. Caminhando pela galeria, seguiu em frente, imaginou que estava caminhando em direção à Praça Osório. Não havia nenhuma conexão, nem escadas, só restava caminhar no tubo fechado. O tubo parecia ser feito de Inox, bonito, muito brilhante. Um luxo para ficar debaixo da terra.
Cinco minutos de caminhada e o Otávio, graças a Deus, encontrou uma porta à esquerda. Ele abre a porta procurando uma saída, e lá está o que ninguém quis averiguar. Ele relatou que o calor que vinha de dentro da porta era realmente infernal, mas não era insuportável, tanto que o Otávio entrou porta adentro, sua única opção no momento, já que o tubo principal não tinha outra saída.
Bem, da porta surgia uma escada de marinheiro dourada, enquanto ele descia, olhava para baixo, mas parou quando notou que aquela sala gigante parecia um lounge. O ambiente tinha luzes vermelhas fracas e um som alto de música eletrônica vinha do outro lado da parede oposta, lá no chão um jogo se sofás vermelhos em formatos exóticos e mesas de centro, além de copos com bebidas espalhados pelo local. Ele ficou ali parado. “Subo ou desço? Ai caracas, que lugar é esse?”. De repente, a porta se abre e o som de música eletrônica invade a sala, o Otávio ali paralisado, segurando a sua pastinha. Labaredas de fogo saíam da porta e entravam na sala até que a porta foi fechada.
Entrou na sala o maior cara que o Otávio já viu na vida dele, musculoso e sem camisa, parecia uma caricatura. Ele e mais dois camaradas de terno preto. O Otávio jura que o cara era vermelho, mas eu acho que era a luz do lugar que dava um efeito especial. O cara grande sentou no sofá e começou a falar com os outros dois. O Otávio jura que o cara grande tinha um rabo pontudo, mas na situação dele, até eu teria estes delírios. Durante a conversa, um dos caras abriu uma maleta cheia de dinheiro e empurrou para o lado do grandão. O Otávio jura que o cara vermelho tinha dois chifres na testa, mas eu já fui em raves e sei como esse povo se veste, o Otávio é que é um ultrapassado e não conhece o comportamento dos jovens.
Após uma breve conversa, o cara sem camisa fechou a maleta e apertou a mão dos caras de terno. Ele levantou, pegou da frente do sofá um tridente (o Otávio é um pouco exagerado, chamar bengala de tridente) e voltou com a maleta para a sala das labaredas. Os caras de terno levantaram logo depois e seguiram na direção oposta. Saíram por outra porta.
Assim que todos desapareceram, o Otávio subiu correndo a escada e voltou para o tubo. Começou a correr na direção que ele achava que ficava a Praça Osório. Parou de repente quando viu outra escada dourada e um clarão lá em cima. Não pensou duas vezes e subiu pela escada. Vinte minutos de subida e o Otávio saiu dentro de um banheiro, do lado de uma privada. Entrou no banheiro e fechou o buraco de onde ele saiu com duas lajotas que estavam do lado. Abriu a porta do banheiro e viu que estava dentro do Shopping Cidade. O Otávio voltou para dentro do banheiro, tirou a sujeira do terno e da pasta. Lavou o rosto e as mãos e ajeitou o cabelo. Saindo novamente do banheiro, lembrou de um cliente que tem uma loja dentro do Shopping. Aproveitou que estava ali e foi fazer uma visita para o cliente. O Otávio é um vendedor atencioso.
A Gazeta não quis publicar, mas eu prometi para o Otávio que publicaria. Se alguém puder ir até o local e confirmar a história, favor me avisar. Sempre é bom ter um segundo ponto de vista. O Otávio só pediu para avisar que ele voltou ontem no cruzamento das Marechais para olhar o buraco, mas segundo ele, não tem buraco nenhum.
Lei da ação e reação. A ação: um fator simples. No meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho. Tinha uma pedra. A reação: não demorou mais de um centésimo de segundo, mas com uma complexidade incrível e a finalização perfeita. Uma reação inesperada vindo de um ser com retinas tão fatigadas.
Começou com a pele do dedão do pé que ’sentiu na pele’ o acontecido e resolveu pedir uma solução para o cérebro, o dedão queria uma resposta, uma reação à altura da topada. A pele transferiu a informação do acontecido para o nervo que ouviu com atenção qual era a necessidade do dedão. O nervo, como um telégrafo, mandou uma mensagem pela sua extensão que aproveitou o sinal aberto e entrou pela via direita da perna esquerda, passou pelo quadril e por todo o corpo, não demorou mais que milésimos de segundo para fazer todo o trajeto. Conforme a solicitação do pé, o nervo passou pelo coração para perguntar sua opinião, anotou a sugestão de resposta, agradeceu respeitosamente e continuou seu trajeto. Subiu, subiu, subiu e chegou até o pescoço, procurando por um tal de ‘cérebro’. O nervo, muito calmo, não quis atrapalhar o trabalho do órgão pensante, por isso entrou em contato com pouco mais de 100 bilhões de células nervosas explicando rapidamente a situação e elas tiveram a incumbência de comunicar com clareza aos neurônios, funcionários do cérebro, o que havia acontecido. Não se sabe como, mas a informação chegou aos neurônios completíssima e eles começaram entre eles um trabalho incrível de emissão de raios muito loucos chamados de sinapses elétricas (isso muito ao som de muito rock ‘n roll).
No momento da aprovação da proposta com o cérebro os neurônios ouviram a resposta de sempre: “esses assuntos sentimentais são com o coração, o que ele aprovar, para mim está bom”. Então os neurônios juntaram ao dossiê a sugestão sentimental do coração, a aprovação (?) do cérebro e um resumo da conversa que tiveram com o ouvido para ver o que ele havia escutado por aí sobre o assunto.
O pessoal formou um pacote com a resposta a ser dada, caracterizando assim uma ‘reação’ à ação efetuada lá no pé. (Tudo desenvolvido sob pressão e em milésimos de segundo). O pacote de informações foi embrulhado para viagem em papel reciclável e de fácil abertura. Destinatário: Sr. diafragma.
O pacote foi devolvido ao nervo (espécie de motoboy orgânico), que colocou o pacote desenvolvido, a partir dos raios elétricos emitidos pelos neurônios, em um lugar seguro e encarregou-se de transportar a importância até o local de entrega.
Desta vez, sem precisar viajar por todo o corpo, o nervo pegou um atalho, fazendo um caminho mais curto, pegou a aprovação final do coração e chegou até o diafragma, sem trânsito, onde dali o pacote seria lançado como um foguete para chegar ao destino no tempo ideal. Tudo isso em milésimos de segundo.
O diafragma juntou todas as suas forças e de peito estufado deu um toque para os pulmões, tipo: “Vamos botar para quebrar” ou “Rock and Roll Baby”, sei lá, sei que o sentimento era esse. O pacote foi aberto pelo diafragma e a encomenda se espalhou de forma ordenada, formando a seqüência perfeita conforme o coração havia aprovado. O diafragma impulsionou tudo para cima, só não sei dizer se foi enviado via laringe ou faringe, mas sei dizer que chegou no lugar certo sem perder a força. As cordas vocais afinadas treinaram antes de entrar em ação e após terem certeza de que a resposta estava pronta para ser emitida elas mandaram o sinal.
A garganta empurrou como uma mola, a língua contorceu-se como deveria ser feito. A sincronia entre mandíbula, língua e lábios foi um trabalho extremamente profissional, coisa de quem trabalha junto há anos. E deu no que deu, o pacote criado pelos criativos neurônios formou a reação perfeita como resposta à topada da pedra, e a voz, que faz dupla com as cordas vocais, encarregou-se de finalizar o trabalho perfeitamente.
Todos aguardavam com expectativa quando a resposta saiu pela boca e tomou o exterior de modo fantástico, tudo conforme planejado. Todos tinham a certeza de que a solução criada para responder a topada na pedra era a resposta perfeita para a situação. E tudo o que você acabou de ler foi baseado em fatos reais e não demorou mais de um centésimo de segundo, até que, no momento em que o dedão do pé já começava a doer, a resposta criada pelos neurônios saiu pela boca do humano:
- Filha da puta!
Foi eleita a igreja mais bonita da cidade, voto do povo. Tinha o altar mais lindo já visto pelos olhos dos habitantes daquela redondeza, uma verdadeira maravilha celestial. O filho do onipotente, onipresente, onisciente, e essa coisa toda, estava lá, no altar, entalhado em pedra, como uma bela escultura medieval ituana. Era gigante, tinha mais de três metros de altura, robusta passava a sensação real, do inimaginável, do poder representado por Ele. Nada de pregar o cara na cruz ou entalhá-lo fazendo expressão de dor, era uma escultura fantástica, que flutuava sobre o altar, abençoando o rebanho que comparecia diariamente.
Naquele dia a missa foi normal. Hinos empolgantes, violões desafinados, garotas em coro, enfeitadas como em noite de gala, cantavam uma missa nos conformes.
Já estava no sermão, salientando o que havia lido anteriormente. Esclareceu o trecho “a pedra lançada por Pedro na noite da reunião com o louvado”. Deixou claro que essa era uma mensagem do divino, na qual podemos extrair uma lição de vida, “todos os medos da humanidade representam uma ligação com o passado representado pela pedra” e, portanto, “não deixem sua pedra cair”, repetiu o sacerdote doze vezes durante o sermão. Cada vez frisava e exaltava mais a necessidade de segurar a pedra para garantir um futuro abençoado. Tudo caminhava normalmente, o sermão chegava a um final perfeito. O Credo já estava para começar e a frase “todos em pé” estava para acordar os fiéis que teimavam em dormir ao longo da pregação, foi quando algo aconteceu.
O estrondo foi forte, o piso tremeu, as paredes atrás do altar resistiram, os fiéis ficaram sem reação. Foram três segundos assustadores, em que ninguém saiu da igreja. Quando alguns viram, começaram a se ajoelhar e a rezar, outros choravam e outros pensaram viver um pesadelo. A estátua de pedra caiu em pé no chão, levantou levemente a cabeça, olhou para o sacerdote e disse rápido e em voz baixa: ‘cansei’. Após declarar esta frase enigmática, saiu pela porta atrás do altar, dirigiu-se até um quartinho localizado nos fundos da igreja, deitou-se em uma cama de solteiro e descansou um pouco.
Conto escrito com três mãos: Duas minhas e uma do Felippe Motta (www.literaturadebordel.blogspot.com
- Levanta e desliga essa coisa Zé, tá muito frio…
- Eu não véia, vai desligar você, pra mim tá bom ansim, eu não vou levantar.
- Óóia zééé… Véia é a tua mãe! E você não me provoca não, porque hoje eu não tô pra brincadeira… desliga essa merda, que eu to mandando…
- Mandando o cacete, deixa esse ventilador ligado porque eu to com calor…
- Você tá muito forgado, viu, Seu José de Oliveira!
- Eitá vida mardita, viu sô… É por isso que eu digo, bão memo são as puta lá da cidade. Você dá uma trepada, vai embora e não precisa ficar ouvindo merrrda.
- O que que você tá falando? Me comparando com vagabunda?
- Comparando não, to dizendo que elas são melhor que você…
- ?!
- …
- Você quer desligar essa porcaria de ventilador de uma vez, antes que eu te mostre quem é melhor no que?
- Ô CARAIO! O Zé começa a gritar, agora ele perdeu a paciência EU NÃO VOU DESLIGAR ESSE VENTILADOR MALDITO, PORQUE EU TO COM CALOR E EU QUERO ELE LIGADO! Finaliza irônico - Entendeu? E vira para o lado, decidido a dormir.
- Zé… Levanta e desliga o ventilador, agora. Diz ela sentada na cama, olhando para o ventilador.
- Não, desliga você. O Zé virado para seu lado de dormir.
- Não Zé, desliga você, foi você quem ligou essa coisa.
- Não, desliga você.
- Eu não vou levantar, você vai desligar Zé.
- Eu não vou levantar, então deixa ligado.
- Zé. Desliga.
- Não.
- Desliga Zé.
- Não. Boa Noite.
- Zé. Desliga. Agora.
O Zé chega no limite e transborda a sua paciência. Enfia a mão debaixo da cama, puxa o trabuco e dá três tiros…
Bam! Bam! Bam!
- Pronto véia chata. Tá desligado. Diz o Zé, olhando para o ventilador estilhaçado aos pés da cama.
A véia dura e com os olhos esbugalhados vira para o lado e sem dizer uma só palavra, decide dormir.
Ele não acreditava em Duendes (e quem realmente acredita?). Chá de cogumelo ele nem conhecia. Piloto de avião, 45 dias fora de casa, viagens a toda hora, não conseguia voltar para casa. Nos momentos ócios andava pelas cidades onde passava procurando um enfeite que substituísse… O duende do jardim…
Tinha que ser algo magnífico e caro, que encantasse a esposa, ela adorava aquele duende. Ele passou as horas vagas dos dias procurando, e nada. Na volta das viagens, 45 dias de saudades, encontrara a mulher grávida.
- Está de uma semana conclui o ginecologista.
- O senhor está enganado, esta criança tem no máximo 50 dias.
- Impossível insiste o médico são 37 anos de carreira e nunca me enganei com este processo. Queira me desculpar, mas você está errado.
- Pois preparee para sofrer seu primeiro processo em 37 anos de carreira, doutorzinho. Não é um vigarista como você que vai arruinar as coisas entre eu e minha mulher, seu vigarista.
Fica por isso, o médico não entende, desconfia, mas deixa pra lá. O piloto procura outro medico com quem se entende para fazer o parto do filho.
No dia em que a criança nasce, o pai visita e leva um presente para a mulher, o melhor agrado que ela poderia receber, mais um duende para o jardim. Com o nascimento do filho ele esquece as bobeiras e a implicância com os duendes.
Dentro do quarto, a mulher sorrindo com o filho nos braços, o pai abre o pacote de presente, mostrando para a mulher o que trouxe. Filho no braço esquerdo da mãe, ele coloca o novo duende no braço direito, demonstrando que seu preconceito fora embora.
Dando um passo para trás, mas sem tirar o sorriso do rosto o pai compara criança e duende, lado a lado, e nota que a criança apresenta as orelhas pontudas semelhantes às do duende e nariz rosa igual ao do velho duende do jardim. Silêncio e nenhum comentário, o sorriso foi mantido.
Ao chegarem em casa, na volta do hospital, o velho duende do jardim havia fugido. O piloto nota, mas não comenta nada. Ela faz que não viu nada.
A criança era linda.
O problema dele eram as balas mastigáveis de morango.
Começou cedo. Quando criança, daria a vida por uma bala (até aí tudo bem, criança), mas na adolescência o problema perdurou, ninguém sabia de sua compulsão.
Casado, pai de 3 filhos, uma família que consome uma quantidade de balas normal, nada além da média mundial, não fosse ele, que comia balas clandestinamente sem entrar na estatística.
Nem pirulitos, nem chicletes, nem colheradas de açúcar, nem café melado, nada substituía.
Tinha fama de portador de problemas renais, ia demais ao banheiro, tolos, ninguém desconfiava o que ele fazia lá, comia 20 balas em 5 minutos, quantidade muito acima da média mundial.
Um dia quase foi desmascarado, a esposa achou no bolso do paletó um recibo do atacadista de doces, R$ 500,00 reais em balas, ela engoliu a história sem desconfiar, “premiação para o departamento”, só perguntou se era para o ano inteiro. Respondeu que sim, suava.
Lendo o jornal descobre uma pequena fábrica de balas mastigáveis a procura de um sócio. Foi aceito. Como um bom profissional de contabilidade se destaca e tem bom resultados como sócio.
Mas o temido acontece…
…
…
Em uma semana ele começa a roubar balas do setor de produção, começa com um pacote por dia, mas se descontrola… Em 2 meses a pequena fábrica vai a falência por causa das balas roubadas que deixam de serem vendidas.
Sua experiência na pequena fábrica lhe garante um ótimo cargo na contabilidade de uma multinacional de balas mastigáveis. E mesmo com 10 anos de mercado a multinacional vai a falência, motivo: perda de faturamento, as balas começaram a sumir misteriosamente.
Com o incontável número de balas a disposição e sua habilidade no roubo dos doces sua carreira toma um rumo negro e desconhecido pelas industrias, família e sociedade.
Seu currículo está cada dia melhor, ele é um ótimo contabilista.